O Rio Araguaia está secando e pode morrer em breve

Confira nesta reportagem do nosso editor-geral, a agonia pela qual padece um dos maiores patrimônios naturais de nosso País, sobretudo do Brasil Central

Por Adeildo Lucena/Da Editoria

É bonito, é bonito, é bonito… É o mínimo que se pode dizer do rio Araguaia, um dos mais importantes e ricos do País, desde a sua nascente na Serra do Caipó, em Mineiros, nos altiplanos que dividem os Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. E dali até a sua foz. Por 2.115 quilômetros de extensão o rio passa pelo território de quatro estados: Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Na sua sua corrida sempre em direção ao Norte, deságua no Tocantins. A área da bacia do rio Araguaia tem 86.108 quilômetros quadrados e os seus principais afluentes são: Água Limpa, Babilônia, Caiapó, Diamantino, Cristalino, Crixá-Açú, Crixá-Mirim, Garças, Javáes, das Mortes, do Peixe I e do Peixe II.

Entre as muitas atrações de valor, consideradas econômicas, a região do Rio Araguaia é um ponto turístico com grande potencial. Principalmente pela beleza de suas praias na estação da seca e também pela alta piscosidade. O Araguaia já foi considerado um dos mais piscosos do mundo. Título que esteve ameaçado, principalmente pelos modelos de turismo então existentes, com destaque para a pesca predatória e o abandono de resíduos sólidos provenientes das práticas de camping. E não é só: tem também a poluição gerada por agroquímicos e o barramento das águas do rio através da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, sem mecanismos necessário para a subida natural de peixes no período da desova, fato que vem contribuindo para o declínio das populações da ictio-diversidade do Araguaia.

‘Araguaia Para Sempre’

Acrescente-se a isso as previsões nada alentadoras para o futuro do Araguaia, feitas a partir de pesquisas recentes sobre os efeitos do atual modelo de exploração econômica do rio e da região de sua bacia. Tão certo como dois mais dois são são quatro, avizinha-se um desastre ambiental sem precedentes para uma das regiões mais belas do País. Veja o leitor: “A monocultura, principalmente a da soja, vem ameaçando suas nascentes e seus afluentes, principalmente através da infiltração de agrotóxicos na água, além do assoreamento causado pela derrubada da mata nativa.”

Por exemplo: no final de 2016 foi lançado o documentário “Araguaia Para Sempre”, do cineasta Hélio Brito, sobre as três ameaças ao ecossistema do Rio Araguaia: a implantação de uma hidrovia, as hidrelétricas e o inexorável avanço das monoculturas de soja e cana-de-açúcar na alta bacia do rio, conforme matéria jornalística divulgada na ocasião pela Gazeta do Cerrado. Essas denúncias que reforçam a luta contra as ameaças ambiental e ecológica ao natural bem goiano, ou seja, a bacia do Araguaia, não param por aí. De acordo com alertas baseados em vários estudos, cientistas e ambientalistas têm demonstrado a certeza que o rio corre sérios riscos. Nesse sentido, o titular da Delegacia Estadual do Meio Ambiente de Goiás, Luziano Carvalho, já dizia em junho de 2016 que “em breve haverá conflitos motivado pela água e que o produtor precisa reduzir desperdício em vez de ampliar fronteira agrícola”. Acrescentando em seguida: “Em alguns anos vamos ver o Araguaia seco. É algo até óbvio”.

Uma verdadeira barbaridade. Atualmente, na época da seca, em alguns pontos o rio já pode ser atravessado a pé. Fato que há alguns anos, antes da derruba das matas ciliares, era praticamente impossível. Os afluentes estão secando e os reflexos podem ser vistos a olho nu. Veja você, caro leitor. No ano passado, o rio Araguaia atingiu um dos níveis mais baixos da história. É certo que a seca tem contribuído para baixar o nível das águas. Porém, os danos causados por outras ações como, por exemplo, o avanço acelerado da agropecuária, com reflexos irreversíveis e que já preocupam ambientalistas, cientistas e algumas autoridades, principalmente do Estado de Goiás, como por exemplo, os deputados Bruno Peixoto e Mané de Oliveira, este então presidente da Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Assembléia Legislativa e que no final do ano passado alertou para o fato de que o Rio Araguaia está realmente morrendo. “Nunca vi peixe viver sem água”, disse e acrescentou que “os lagos que abastecem o rio e são criadouros dos peixes, mas estão sendo usados, de forma ilegal, para regar plantações de soja”. “Assim não dá. É preciso haver repressão, multa e até cadeia pra esse povo”, sentenciou.

O assoreamento acelerado do leito, a falta de preservação de suas nascentes e variadas fontes de poluição já começaram a matar o rio mais simbólico de Goiás. O seu fim está cada vez mais próximo, caso não haja mudanças na maneira como ele é tratado. Sem duvida, é claro. Por isso, para confirmar, quando as chuvas pararem e chegar a época da seca, vá ver para crer.

‘Omissão gravíssima’

Na esteira da luta contra a depredação da bacia do rio Araguaia, o Ministério Público Federal (MPF) iniciou no mês de dezembro do ano passado, a apuração da retirada excessiva de água do Rio para uso na agricultura, em Goiás. E não poderia ser de outra forma. Para que o leitor possa entender, em uma estrutura montada em São Miguel do Araguaia, oito bombas retiram água suficiente para irrigar uma área do tamanho de 2,8 mil campos de futebol, 24 horas por dia. E pasmem: a Agência Nacional de Águas (ANA) diz que não há problemas e informa que o empreendimento tem autorização para retirar esse volume até 2034.

O leitor há de concordar que isso é um absurdo. Um verdadeiro crime ambiental. “A Agência não pode simplesmente emitir uma outorga e lavar as mãos. Isso aí é uma omissão grave, gravíssima da ANA em relação ao meio ambiente. Uma outorga com prazo de 20 anos é uma outorga ilógica e claramente ofende os princípios do direito ambiental”, disse na ocasião a procuradora da República, Léa Batista. Por sua vez, ambientalistas e a Polícia Civil de Goiás dizem que esse projeto de irrigação é um importante berçário de aves, peixes e mamíferos.”Todas essas lagoas são áreas de preservação permanente, são como nascentes”, afirmou o delegado Luziano Carvalho em dezembro do ano passado. Ele disse também que a cada ano que passa a quantidade de água do Rio Araguaia diminui e que o rio está secando porque muitos dos seus afluentes secaram. Em seguida, deixou a a pergunta: Quantas nascentes, lagoas desapareceram? E nem é preciso pensar muito para ter a resposta.

A pecuária, o avanço da soja e do milho, inclusive com o desmatamento de nascentes e margens, além dos grandes projetos de irrigação e as voçorocas, são as principais ameaças ao Rio Araguaia e seus afluentes. Um verdadeiro despautério: só no ano de 2017, a Delegacia Especial do Meio Ambiente de Goiás abriu 260 inquéritos para apurar a captação irregular de água. E veja que pouca vergonha e/ou falta de seriedade de um órgão público federal. No caso da Fazenda Santa Rita, no município de Jussara, o canal tem 9 km de comprimento e retira 11 mil metros cúbicos de água por hora. Consultada, a ANA informou que a retirada é legal, mas que não cabe a ela autorizar a obra no canal. Por sua vez, a Secretária do Meio Ambiente, responsável por essa liberação, diz que a estrutura não tem licença para funcionar, enquanto o proprietário da Fazenda Santa Rita afirma que conseguiu a autorização do Tribunal de Justiça de Goiás para continuar irrigando. E enquanto a Secretaria do Meio Ambiente recorreu dessa decisão, o Ministério Público denunciou o caso à Justiça Federal pedindo a cassação da outorga.
Tudo isso é uma vergonha ou maracutaia com muita corrupção, que têm passado despercebidas aos olhos benevolentes do Governo Federal, que parece alimentar apenas a sua ambição com a arrecadação dos dólares da exportação de grãos, sem demonstrar nenhum preocupação com o desastre ambiental sem precedentes que se avizinha a passos rápidos de uma das regiões mais belas do Brasil.

 

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