‘A verdadeira mudança só vai acontecer quando rompermos com as oligarquias que controlam a política brasileira’

Jovem bibliotecária será uma das pré-candidatas a deputada federal nas eleições deste ano e quer “uma renovação política que garanta representação e coloque grupos excluídos dos espaços de poder”

Por João Negrão

A bibliotecária Thaynara Melo, de 25 anos, é pré-candidata a deputada federal pela Rede Sustentabilidade. Thayanara, uma jovem baiana de 25 anos, que mora desde 2010 em Brasília, é nossa segunda entrevista da série de entrevistas que o Repórter Brasil Central está fazendo com as pré-candidatas e os pré-candidatos às eleições de outubro próximo.

Fale um pouco sobre sua vida pessoal. Quem é Thaynara Melo?

Tenho 25 anos, sou baiana e a filha mais nova de duas. Nasci em Salvador e passei parte da minha infância no interior da Bahia em uma cidade chamada Ipirá. No ensino médio, minha família se mudou para Goiânia-GO considerando que as filhas poderiam ter mais oportunidades. Desde jovem meu pai dizia que a única coisa que poderia dar para as filhas era educação. Nem meu pai e nem minha mãe possuem ensino superior e acreditavam que investir na nossa educação seria o caminho para nos ver crescer enquanto indivíduos. O sonho de ambos era nos ver em uma universidade federal, pois sabiam que não era viável arcar com os custos de uma faculdade privada. Tendo em vista a necessidade de um bom ensino, meu pai dedicou boa parte do seu tempo a visitar as escolas privadas, e em conversas com as diretoras, sempre conseguiu bolsas que permitissem que estudássemos em escolas de alta qualidade. Meu senso de responsabilidade começou quando percebi que precisava corresponder ao esforço dos meus pais com vitória no ensino. Aos 17 anos me mudei para Brasília para estudar Biblioteconomia na Universidade de Brasília (UnB) e minha irmã aos 19 anos para estudar Direito na Universidade Federal do Goiás (UFG).

Fale sobre a sua militância. Quando e como se despertou para a consciência política? Como iniciou sua atuação partidária?

Minha caminhada política começou quando me mudei para Brasília em 2010. No segundo ano de universidade, tornei-me coordenadora geral do Centro Acadêmico de Biblioteconomia da UnB. Em seguida, fui representante discente no Conselho Superior da Universidade de Brasília (CONSUNI) e do Núcleo de Agenda Ambiental, além de ser uma das colaboradoras do Coletivo Unificado de Mulheres da UnB. Quando percebi, já tinha me envolvido em diferentes movimentos.

Em 2012, com a proposta de mudança do Código Florestal no Congresso Nacional, ajudei a organizar o Comitê das Florestas, que entre suas ações, realizou uma ocupação de um mês em frente ao Congresso Nacional, levou centenas de alunos da UnB para o Rio + 20 e protagonizou a campanha Veta Dilma junto a WWF.

Tornei-me, em 2013, extensionista do Ponto de Memória da Cidade Estrutural. Meu papel era coordenar os trabalhos da Biblioteca Comunitária Catando Palavras, que se iniciaram anos antes com livros retirados do lixão da própria cidade. No ano seguinte escrevi e ganhei um projeto selecionado pelo edital do MinC para aquisição de bens na biblioteca.

No mesmo ano com a aproximação da Copa do Mundo de 2014, acompanhada das crescentes violações de direitos humanos e escândalos de corrupção no país, entrei para o Comitê Popular da Copa. Fui responsável por escrever e coordenar o projeto que ganhou o Edital do Fundo Brasil de Direitos Humanos que visava debater com crianças e adolescentes da rede pública de ensino sobre o aumento da exploração sexual em megaeventos.

Em 2014, aos 21 anos de idade, recebi o desafio de ser coordenadora nacional de juventude da campanha de Eduardo Campos e Marina Silva. Tranquei a universidade e me mudei para São Paulo.

Adentrei o serviço público em 2015 quando assumi o cargo de assessoria especial na Casa Civil do GDF e trabalhava com programas de participação social e recolhimentos e demandas da sociedade civil. No mesmo ano entrei no que seria meu último cargo relacionado ao movimento estudantil, tornei-me Diretora de Extensão Universitária da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Você também participou de outros movimentos, como o Teia Solidária e o Acredito em Brasília. Como foi?

Passados esses anos, em 2016, voltei a dedicar minha caminhada política exclusivamente ao Distrito Federal. Foi nesse momento que surgiu a ideia da Teia Solidária, uma organização da sociedade civil criada com objetivo de promover a participação social em escolas, colaborar para o aumento do alcance das ações de movimentos comunitários e desconstruir preconceitos. Continuei também no serviço público e com 23 anos me tornei Coordenadora de Articulação Social da Secretaria de Segurança Pública onde trabalhei com política de prevenção para população em situação de vulnerabilidade social.

Em 2017 passei a liderar o Movimento Acredito em Brasília. Um movimento nacional e suprapartidário que tem como objetivo consolidar um novo congresso nacional com a cara do Brasil. Lançamos as Casas que Acreditam, um projeto que realiza visitas em casas para recolher demandas da sociedade para o DF. No final do ano decidi me filiar a Rede Sustentabilidade que representa hoje, uma mudança cultural no espaço institucional.

Já em 2018 fui aprovada no programa de formação e capacitação do Renova Br que selecionou em todo Brasil 100 lideranças públicas entre 4 mil inscritos. Além de ser aprovada como Líder RAPS 2018 que identificou 102 lideranças para fazer parte da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade.

Hoje, aos 25 anos de idade, estou organizando minha pré-campanha a deputada federal com objetivo de garantir representação de jovens mulheres nos espaços de poder para colaborar com o caminho de igualdade de gênero e redução da violência no Distrito Federal e no Brasil.

O que devemos fazer para mudar o Brasil, para melhorar e sair da crise política e econômica? A propósito, como a analisa o atual governo?

O primeiro passo para mudança do Brasil é realizar uma profunda reforma política e estrutural nos três poderes públicos. Um Executivo que não utilize toda sua equipe com burocracia e atividade meio, mas destine o servidor para atividade fim que gera benefícios diretos à população. Um executivo com maior representatividade e menos privilégios que cumpra seu papel de fiscalização e atualização de leis baseadas em evidências e não em achismos. E por fim, um judiciário célere, menos complacente com crimes de colarinho branco e menos burocrático.

O atual governo de Michel Temer é um desserviço para a população brasileira. Realizou uma série de reformas em áreas estratégicas, porém com os conteúdos equivocados. O atual governo penalizando a população em geral e trabalhadores para estancar a crise gerada por setores econômicos e escândalos de corrupção.

Por que você quer ser candidata a deputada federal?

A verdadeira mudança no nosso país só vai acontecer quando rompermos com as oligarquias que controlam a política brasileira que legislam a favor dos seus interesses econômicos e individuais. Precisamos de uma renovação política que garanta representação e coloque grupos excluídos dos espaços de poder para reivindicar melhorias sociais coletivas e reparações históricas. Quero colaborar para a construção de uma frente parlamentar que não se preocupe com a reeleição, mas a servir à população.

Luto para ser deputada federal para servir de exemplo para outras mulheres. Mostrar que temos capacidade intelectual e política de dirigir o país ao lado dos homens. Hoje somos 54% da população e apenas 10% da câmara federal. A falta de representação acaba reprimindo demandas que precisa de legislação e políticas públicas especificas para reduzir a violência sexual, doméstica, garantir equidade salarial no mercado de trabalho e liberdade sexual e reprodutiva.

Quais são as suas propostas caso chegue à Câmara Federal?

Minha plataforma de trabalho terá como base três eixos: Igualdade de Gênero, Sustentabilidade e Bibliotecas Públicas.

Na Igualdade de Gênero quero garantir maior representação de mulheres no espaço de poder através da criação de cotas para 30% das cadeiras nas câmaras estaduais, distrital e federal. Defenderei a criação de lei que vise regularizar o atendimento pré-natal, parto e pós-parto, com foco especial para mulheres negras no SUS. Segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2010), uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto como gritos, procedimentos dolorosos não autorizados ou informados, ausência de anestesia e negligência. A violência obstétrica está mais presente no caso de mulheres negras segundo dados da Campanha SUS Sem Racismo (2014) do Ministério da Saúde. Também penso ser necessário ampliar de 5% para 30% do orçamento do fundo partidário destinado para o segmento de mulheres e na criação do Programa de incentivo ao empreendedorismo feminino.

Em relação à Sustentabilidade, lutarei para transformar, via emenda constitucional, o Cerrado em Patrimônio Nacional para determinar área de proteção legal e fiscalização mais rígida. A substituição da vegetação nativa por monocultura atinge diretamente o abastecimento de água no sudeste e centro-oeste. Ao todo mais de 50% de cerrado nativo já foi desmatado e apenas 3% se encontra em área de proteção integral. Penso ainda ser necessário a destinação de emenda parlamentar e regulamentação por lei do Programa Produtor de Água da ANA (Agência Nacional das Águas) no Centro-Oeste, que possui foco no estímulo à política de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) voltados para a proteção hídrica. É necessário também aumentar a periodicidade em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) deve reavaliar os agrotóxicos autorizados no país. Aprofundar e descrever, via lei, o processo de avaliação de contaminação da água de lençóis freáticos e rios no perímetro de utilização de agrotóxicos. Outra proposta será a realização da CPI do Agrotóxico para identificar as condições de trabalho e impacto na saúde a curto, médio e longo prazo dos trabalhadores expostos aos agrotóxicos, desde a fabricação na indústria química até a utilização na lavoura e o manuseio no transporte.

Sobre as Bibliotecas Públicas, batalharei para a destinação de emenda parlamentar para investimento em infraestrutura e internet na Rede de Bibliotecas Públicas do Distrito Federal; pelo monitoramento da implementação da lei que delimita que toda biblioteca pública deve ter um bibliotecário; e a articulação com a CLDF para criação da carreira de bibliotecário no Governo do Distrito Federal.

O que precisa ser mudado na Câmara?

É preciso mudar a relação promiscua entre o legislativo e o executivo. As proposições legislativas e distribuição de emendas não podem ser baseadas em negociatas e na reeleição dos deputados federais. Além disso, a câmara não deveria ter uma “boa oportunidade de negócio” e sim entendida como um local para servir a população. Acredito que todos benefícios, aposentadoria especial e auxílios deveriam ser retirados se mantendo apenas o que todo trabalhador brasileiro tem direito: décimo terceiro e férias.

Que tipo de governo precisamos no Distrito Federal?

Precisamos de um governo que ouça de verdade as demandas da população, que respeite o interesse público e o princípio da impessoalidade, deixando de lado definitivamente o clientelismo. Para construir um governo sólido é necessário construir um projeto coletivo a médio e longo prazo para ter base na CLDF e não construir acordos baseados em troca de cargos em secretarias e administrações regionais. Por fim, descentralizar o poder é importante para fortalecer as diversas realidades administrativas, as eleições diretas para administrador podem aprofundar a democracia e reduzir a política de troca de favores.

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