‘É preciso retomar a perspectiva revolucionária’

Manoel Filho, pré-candidato a deputado federal pelo PC do B, defende o combate ao “golpe extremamente sofisticado e inovador” por meio da “reorganização das forças políticas populares”

Por João Negrão

O professor Manoel Filho, um dos diretores do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), é pré-candidato a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B). Ele é o nosso entrevistado, dentro da série sobre os pré-candidatos na eleições de outubro próximo.

Quem é Manoel Filho?

 

Bom, sou um cara comum, casado há 34 anos com o amor da minha juventude, tenho dois filhos e caminhando para o quarto neto. Tenho 56 anos, sou de Brasília, mas uns dizem que sou do Piauí. Sou professor e ex-sargento PM. Tive uma infância muito pobre, tendo inclusive morado em favelas do DF. Na juventude tive que começar a trabalhar muito cedo, fui engraxate, vendedor de jornal, lavador de carro, office boy, corri muito de rapa na Rodoviária do Plano, ou seja sou um sobrevivente apaixonado por gente e com um desejo enorme de contribuir por um Brasil melhor.

Fale sobre a sua militância política e sindical.

A consciência política é um processo que nasce e vai crescendo na medida que vai sendo construída a nossa emancipação. Tem início, geralmente, a partir de uma ação com intencionalidade de outrem. Destaco aqui a importância de meus e minhas professores e professoras, que despertaram a consciência de quem eu sou.

Portanto, esse despertar não é só responsabilidade minha enquanto sujeito, mas de um processo sócio-interacionista; minha consciência política é fruto das diversas relações que tive e tenho ao longo de minha vida com todos os sujeitos com os quais interagi e o meio em que vivia e vivo; é um processo e não acaba nunca e a cada dia vai se aperfeiçoando.

Atualmente sou diretor do Sindicado dos Professores de Brasília, sou dirigente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), sou dirigente do PC do B, comecei a militância no movimento estudantil, quando fui presidente de grêmio estudantil e tive meus primeiros contatos, ainda na clandestinidade, com o PCB, o grande partidão.

Quanto mais cristão eu sou mais comuna eu sou e, por consequência, menos religioso eu sou.

Costumo dizer que sou, para muitas pessoas, uma aberração, por ser cristão protestante reformado calvinista e comunista. Entendo que a relação dialética que me formou e me forma é uma benção de Deus e isso me responsabiliza a ser benção nas vidas de outrem. Quanto mais cristão eu sou mais comuna eu sou e, por consequência, menos religioso eu sou.

O que deve ser feito para mudar o Brasil, acabar com o governo golpista, retomar a democracia?

Entendo que chegamos a essa situação de um golpe extremamente sofisticado e inovador, mas de fato o maior golpe contra o povo da história do Brasil, por erros na política, pela conciliação de classes e por terem apostado na estrutura diretiva do estado calcado meramente na meritocracia, por terem achado que a inclusão do povo no mercado consumidor de bens e serviços sem a sua emancipação política seria suficiente para resolução dos problemas do país e, principalmente, por terem perdido a perspectiva revolucionária. Em fim, pelo êxito na implementação das pautas do pensamento “pequeno burguês” em detrimento das pautas do povo. A saída, ou superação desse estado de golpismo, passa, necessariamente, pela autocrítica, passa pela reorganização das forças políticas populares, passa pelo investimento na narrativa democrática e sobretudo, passa pela retomada da política como protagonista na resolução e na superação dos problemas do povo. É preciso retomar a perspectiva revolucionária.

Por que você quer ser candidato a deputado federal?

Eu sou porque nós somos!

Martin Luther King diz que o seguinte: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Há muito tempo se tem notícia de corrupção, má utilização de dinheiro público, venda do patrimônio nacional, o crime e a violência subjugando o povo, pessoas morrendo à míngua por falta de recurso na saúde, serviços de educação e segurança sucateados, direitos dos trabalhadores e trabalhadoras sendo suprimidos, e a infraestrutura do Brasil em condição de extrema precariedade. Além de tudo isso, temos deputados que, majoritariamente, não representam o interesse do povo e sim a si mesmos, suas famílias, seus amigos, suas empresas, corporações, religiões e, até, o crime organizado. E nós, povo de bem, o que estamos fazemos diante desse caos? É preciso gritar mais alto que os maus, mostrar nossa indignação com todo esse processo que mantém o povo escravizado, humilhado e oprimido.

Como diz a expressão africana ubuntu, eu sou porque nós somos! Nós, o povo, somos a favor de uma educação pública, laica, de qualidade e emancipadora; nós somos a favor de um serviço de saúde que seja humanizado e atenda de fato as nossas necessidades; nós somos a favor da oferta das condições de cultura, lazer, formação e trabalho para nossa juventude; nós somos a favor de que nossas crianças vivam como crianças; nós somos contra todas as formas de discriminação; nós somos contra todo trabalho degradante que nos humilha e nos massacra; nós somos a favor de nossa emancipação política e social; nós somos a favor de nossa autonomia; nós somos a favor da democracia; nós somos a favor de Brasília; nós somos a favor do Brasil.

Quais são as suas propostas caso chegue à Câmara Federal?

Dentre as minhas propostas, destaco as seguintes: criação de um fundo comunitário que financie projetos comunitários de inclusão social da juventude, a partir da dotação direta de parte dos tributos pagos pela comunidade, fundo esse que será gerenciado diretamente pela comunidade; definição, em lei, do perfil epidemiológico das profissões, o que obrigará o empregador ou o contratador do MEI (Micro Empreendedor Individual) ser responsável pelo não adoecimento do empregado ou contratado em função do seu exercício laborativo; definição em lei de que toda atividade profissional exercida no interior de escolas seja considerada atividade de natureza especial, em face da delicadeza e a necessidade especial no trato com os alunos e as alunas, sujeitos em formação; definição em lei da diferenciação da Educação Física e da Educação Física Escolar, dirimindo com isso os conflitos, distorções e injustiças que essa não-definição vem acarretando desde a Lei que regulamentou a profissão de Professor de Educação Física.

Minha candidatura é da base, é do povo, não temos dinheiro, mas temos uns aos outros e nos apoiando, pois é alicerçada na busca do que é bom e do que é justo.

Como candidato popular e sem recursos, como pretende tocar a sua campanha?

Segundo Antonio Gramisci, o pensamento de uma época é o pensamento de quem domina essa época. Fazer campanha política concorrendo contra o pensamento hegemônico dessa época é muito difícil. Luto contra a força do dinheiro e sua capacidade de comprar consciências. No entanto, isso não deve ser motivo de desânimo. Quando comecei a conversar com as pessoas descobri que não estou só, represento uma legião de indignados, de pessoas que querem dar um basta nos políticos atuais e suas formas de fazer política. Minha candidatura é da base, é do povo, não temos dinheiro, mas temos uns aos outros e nos apoiando vamos construindo a nossa pré-campanha e construiremos a nossa campanha, que com a força do povo vem sendo e será profícua, pois é alicerçada na busca do que é bom e do que é justo.

O que precisa ser mudado na Câmara Federal?

A Câmara precisa a passar a representar os anseios do povo. É necessário que se faça uma reforma política, mas para isso é preciso eleger representantes que sejam compromissados com uma nova política e que opere, de fato, as pautas populares. A reforma política é a mãe e a base de todas as reformas necessárias que urgem serem feitas no Brasil. É preciso acabar com as distorções na distribuição da riqueza e das oportunidades deste país. Da forma com que a política é operada hoje só se perpetua a opressão e a exploração do povo. A mudança de paradigma da Câmara não extingue a corrupção, por exemplo, mas da forma como se encontra só favorece a corrupção e a manutenção do status quo.

O que precisa ser mudado no Distrito Federal? Que tipo de governo precisamos?

O nosso Distrito Federal tem que ser um centro de referência para o Brasil na Política com “P” maiúsculo, tem que deixar os discursos fáceis; tem que ser referência na prestação de serviços públicos de qualidade, seja no transporte público, na educação pública, na segurança, na saúde pública e na geração de emprego para aqueles que aqui vivem; tem buscar, sempre, ser referência no respeito aos direitos humanos. Ultimamente o governo de plantão passou a responsabilizar o servidor público pelas mazelas do estado. Tem que abandonar essa visão. O servidor público é vítima da irresponsabilidade política e administrativa do Distrito Federal. Por outro lado, nós precisamos abrir os olhos e ver a política e os políticos de forma mais crítica, identificar aqueles que de fato estão do nosso lado e aqueles que são patrocinados por corruptores; diferenciar aqueles que na hora de votar na Câmara, votam de acordos com os nossos interesses, daqueles que nos compram com “jogos de camisa” ou lanchinhos para festas e reuniões. Nós temos que aprender a sermos mansos como a pomba e sagaz como a serpente.

Algo que gostaria de acrescentar e que eu não perguntei?

A minha pré candidatura, a candidatura e o mandando de deputado federal estão sendo e serão uma tribuna de denuncia a toda forma de opressão, como também, um instrumento de resistência do povo. É preciso que aqueles que nunca foram ouvidos, nunca tiveram voz tenham e a exerça no sagrado direito de lutar por uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, e é justamente isso que almejo para nós, o povo, um mundo onde a beleza de um sorriso alegre seja o que orne os nossos rostos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *