‘Defendo a união dos progressistas para derrotar o golpe’

Histórico militante do movimento negro, da luta habitacional e direitos humanos, defende também um programa de moradia para o Distrito Federal.outro

Por João Negrão

Viridiano Custódio de Brito tem uma vasta história de luta política no Distrito Federal, atuando no movimento negro e na defesa da moradia para a população pobre de Brasília. Ele é pre-candidato a deputado distrital pelo PT e nosso entrevistado dentro da série sobre as pré-candidaturas à eleições de outubro próximo.

Quem é Viridiano Custódio de Brito?

Sou de Santa Rosa, município no Formosa, em Goiás. Graduado em História pela Faculdades Integradas UPIS, pós-graduado em História da África e dos Afros Brasileiros pela Universidade Brasília (UnB) e pós-graduação em Política Analise de Políticas Pública, também pela UnB.

Passei a residir no Distrito Federal em 1967, na Vila IAPI. Em 1971, fui transferido da Vila com minha família e mais 80 mil pessoas para Ceilândia, onde resido há 47 anos. Desses, passei minha adolescência até 1986 na QNN 3 da Ceilândia Norte, quando me mudei para a Expansão do Setor O, bairro conquistado a partir da luta por moradia do Movimento dos Inquilinos de Ceilândia, do qual fui como um dos dirigentes.

Contribui para a consolidação das novas gerações e de um novo caminho para Ceilândia na organização social do movimento popular. Comecei a atuação popular nas lutas sociais ao acompanhar a minha mãe nas reuniões do Movimento dos Incansáveis de Ceilândia. Forjado nessa experiência, passei a ser militante ativo do movimento popular, participando da fundação da Associação dos Inquilinos, movimento que mobilizou 20 mil pessoas e que foi vitorioso ao conquistar o hoje Bairro da Expansão do Setor O. Como pioneiro no bairro, constituí a ACESO (Associação Comunitária da Expansão do Setor O), uma das entidades de grande referência do movimento popular no DF. Participei da CMP (Central dos Movimentos Populares) local e nacional.

Em 1983 filiei-me ao Partido dos Trabalhadores, sendo eleito presidente da zonal de Ceilândia por três mandatos e assumindo assim a Secretaria de Lutas Populares do PT. Iniciei a minha militância sobre a questão racial na Comissão do Negro do PT-DF em 1986. Integrei o coletivo do combate ao racismo do PT de 2010 a 2014. Ocupei o cargo de Secretario Especial de Igualdade Racial no Governo do Distrito Federal de 2012 a 2014, Atualmente sou da coordenação do Movimento Popular por uma Ceilandia Melhor (MOPOCEM) e secretario de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores do DF.

Em Ceilandia criei meus dois filhos ao lado da companheira e também incansável militante Abadia Alves de Brito. Hoje sou avô de seis netos.

Quando e como se despertou para a consciência política e começou sua luta?

Em 1971 vivíamos o auge da ditadura militar e eu tinha 13 anos. Nesse período comecei a trabalhar como vendedor de jornais e revistas na quadra e entre-quadras do Plano Piloto e sempre acompanhava o noticiário político, lendo esses impressos que, claro, as noticias só trazia conteúdos permitido pelos militares, pois o que não era do interesse do regime era censurado. Em 1980 fui trabalhar na expedição do Jornal de Brasília e por meio desse jornal acompanhei o noticiário sobre a luta pelas Diretas Já, que foi derrotada no Congresso. Nesse período comecei a participar da luta por moradia no Movimento dos Inquilinos de Ceilandia, que em seguida passou a ser Associação dos Inquilinos de Ceilandia. Em1984 fui representar a Associação em São Paulo, no Congresso da Confederação Nacional das Associações de Moradores. Esse congresso mudou minha vida, não pelos debates que se resumiu apenas nas discussão sobre o apoio ao candidato da oposição ao regime militar Tancredo Neves ou o candidato do regime Paulo Maluf, mas sim em uma daquelas bancas montada no local do congresso eu adquirir o livro do João Amazonas “Socialismo, o Ideal para Classe Operária”. Esse Livro me despertou para o a luta pelo socialismo e a consciência de classe e me deu força para prosseguir na luta até os dias de hoje

Como foi a sua experiência como secretário da Igualdade Racial?

Foi uma experiência ótima. Aprendi muito através do contato com as pessoas e dos movimentos, com ajuda da equipe conseguimos elaborar alguns projetos pioneiros no DF, como: Disque-Racismo, SEPIR nas Escolas, Tenda Escola, Roda de Conversa Griô, Plano Juventude Viva, Programa Saúde nas Escolas, Cultura Negra Itinerante, Caravana da Juventude, Campanha “Por uma infância sem racismo”.

Claro que em dois anos não deu para realizar vários outros projetos que seriam muito importantes; Até chegamos a elaborá-los e deixá-los prontos para serem encaminhados à Câmara Legislativa. Um deles foi o projeto que garante conta de 20% para população negra nos concursos para os órgãos públicos do GDF, a exemplo do Governo Federal. O outro projeto que não conseguimos colocar em prática foi o de combate ao racismo institucional. Outra coisa que ficou evidente foi o fato de ter poucos aliados dentro do Governo para adotar políticas de promoção de igualdade Racial.

Como analisa a situação hoje da luta institucional pela igualdade racial, num quadro em que os governos distrital e federal reduziram drasticamente as políticas voltadas o setor?

Vejo que estamos vivendo um retrocesso muito grande e essas políticas estão bastante limitadas, devido ao fato de os governos federal e local terem desmontado os mecanismos de promoção de igualdade racial. Hoje políticas sociais não fazem parte da prioridade para estes governantes.

O que fazer para mudar o Brasil e o Distrito Federal?

Em relação ao Brasil eu visualizo dois caminhos. O primeiro é a mobilização e participação do povo na rua para combater o golpe. O segundo é a unificação do campo de esquerda na construção de um projeto político unificado para apresentar à sociedade brasileira nas eleições de outubro deste ano.

Quanto ao Distrito Federal, primeiro acho que temos que mudar o atual governador que até hoje não fez nada para melhorar a vida do povo. Ao contrário, piorou em várias áreas, principalmente a saúde e o transporte. Agora não podemos retroceder e eleger um governador ligado ao poder econômico. Temos que construir uma frente de esquerda para retirar o DF do caos. Neste sentido, temos que ter um governo participativo que discuta com a comunidade onde vai priorizar os recursos públicos.

Por que você quer ser candidato a deputado distrital?

Em um momento político muito difícil e a falta de representatividade popular e do povo negro nos espaços de poder, em debate com algumas pessoas do movimento e alguns militantes do PT, chegamos à conclusão que devíamos colocar o meu nome à disposição do partido como pré-candidato a deputado distrital. Temos a consciência que da pré-candidatura até a candidatura e a eleição, temos um logo caminho a percorrer. Achamos que será importante colocar à disposição do povo do DF uma candidatura negra e de origem popular para, se eleito, compor a próxima legislatura da Câmera Distrital.

Quais são as suas propostas caso chegue à CLDF?

As propostas serão construídas coletivamente em um seminário que será realisado em abril com todas as pessoas que quiserem participar da construção desse mandato popular. Claro que devido ao meu perfil político construído durante 35 anos de lutas, já posso lhe adiantar algumas linhas que vamos defender. Exemplos: defesa intransigente dos direitos humanos, dos serviços públicos de qualidade, luta pela igualdade e combate ao racismo, discussão de um programa de moradia para o DF.

Como enfrentar o poderio econômico?

Temos o entendimento que as estruturas do processo político brasileiro é para manter os representantes da elite dominante, seja no parlamento ou no executivo, onde há barreiras que impedem a eleição de candidatos populares e a falta de recursos financeiros. Vamos tentar usar a criatividade por meio de doações pela internet, contribuição espontânea da sociedade e eventos para arrecadar recurso para campanha. Além disso, espero receber algum recurso público para campanha, pois o Congresso aprovou financiamento público já para essas eleições.

O que precisa ser mudado na Câmara Legislativa?

Acredito que os eleitores têm que escolher melhor seus representantes, pesquisando o perfil dos candidatos, como a vida pregressa, os seus ideais políticos e culturais. Muitos legisladores ao serem eleitos passam a usar os mandatos como um meio de se perpetuar no cargo e não como um meio de melhor a vida da sociedade. Traem seus eleitores e passam a votar contra eles, se aliam ao poder executivo por meio de cargo no governo. Na minha concepção o mandato é um instrumento de luta da sociedade, onde tem que ser usado pelo bem comum. Espero que nas próximas eleições os eleitores possam usar o seu poder para mudar o atual perfil político da Câmara Legislativa, elegendo pessoas éticas e comprometidas com o coletivo.

Gostaria de acrescentar algo que não perguntei?

Vivemos um momento político muito difícil onde existe um estado de exceção, onde a elite dominante deu um golpe institucional e tenta consolidar esse golpe, emplacando o seu candidato que vai implementar sua agenda, retirando ainda mais direitos dos trabalhadores, aumentando ainda mais os lucros do capital nacional e internacional. Por isso defendo a união dos progressistas para derrotar o golpe.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *