‘Não podemos virar as costas para a política. Não há solução que não passe por ela’

Por João Negrão

O sociólogo e professor Leandro Grass é pré-candidato a deputado distrital pela Rede Sustentabilidade e nosso entrevistado, dentro da série que o Repórter Brasil Central está realizando com os pleiteantes às eleições de outubro. 

Quem é Leandro Grass?

Sou brasiliense e tenho 32 anos. Filho único de uma gaúcha chamada Fátima e um goiano chamado Célio, morei quase toda a minha vida no Plano Piloto e durante alguns poucos anos no Guará. Minha irmã paterna se chama Karine e meu irmão materno Cristiano. Não tenho filhos, mas sou padrinho de uma menina incrível chamada Laís. Sempre fui muito apegado aos meus avós, primos e tios. Tive uma infância feliz, com liberdade e muitos amigos na 402 sul. Estudei minha vida inteira no Centro Educacional La Salle, instituição responsável por uma parte significativa da minha formação, especialmente na dimensão política.

Ainda com 12 anos, já participava da Pastoral da Juventude Estudantil (PJE) e era voluntário em projetos educativos. Com 15, ingressei na Pastoral da Música da Paróquia Bom Jesus e iniciei minha trajetória nos movimentos arquidiocesanos. Aos 17 anos, tive a primeira oportunidade de participar de um projeto fora do DF. Foram as missões educativas, realizadas pelos irmãos lassalistas no semi-árido nordestino, mais especificamente nos estados de Piauí e Sergipe. Lá, atuei como formador de lideranças juvenis e em cursos para professores. Visitamos diversas comunidades e famílias de regiões muito pobres, algo que ampliou minha visão de mundo e foi decisivo na construção do meu projeto de vida.

Em 2003, tornei-me aluno da Universidade de Brasília no curso de Ciências Contábeis. Cursei apenas um semestre. Em julho daquele ano, transformado pelas experiências no Nordeste, resolvi mudar o rumo. Prestei vestibular para Ciências Sociais, pois queria entender e atuar na educação. Passei e me encontrei. A experiência dos quatro anos e meio na graduação foi muito especial. Participei ativamente do movimento estudantil e das empresas juniores. Estabeleci a primeira parceria com o professor Pedro Demo, minha principal referência acadêmica e de atuação docente. A pesquisa em educação me lançou de vez no campo pedagógico, fazendo com que decidisse ser sociólogo e professor.

Em 2006, já licenciado, iniciei minha carreira de professor no mesmo colégio em que sempre estudei. Um ano depois, ingressava na tão almejada educação pública. Trabalhei na SEDF por cinco anos. Naquele momento, optei por outras experiências profissionais e acadêmicas, como a de lecionar no ensino superior. Em 2011, concluí o mestrado em Desenvolvimento Sustentável, tendo feito um estudo sobre a participação social dos jovens nas políticas de meio ambiente. Em 2015, ingressei no doutorado em Desenvolvimento na área de Gestão Pública. Me aproximei ainda mais da esfera governamental e do debate sobre os problemas públicos. Em 2017, morei por 5 meses em Barcelona para realizar parte dos meus estudos no Instituto de Governo e Políticas Públicas da Universidade Autônoma. Além de uma grande experiência cultural e acadêmica, pude ver de perto excelentes práticas de gestão e participação social.

Além de gostar muito de estudar e lecionar, sou uma pessoa que tem muitos amigos, gosta de praticar esportes, fazer música (tenho uma banda!) e conhecer coisas novas. Me vejo como alguém comum, que sonha, trabalha e busca realizar aquilo que acredita.


Fale sobre a sua militância política, quando decidiu abraçar a política partidária e ser candidato.

Tudo começou na PJE. Ali foi uma verdadeira escola de liderança e militância. Participei de diversas assembleias e encontros, coordenei grupos e estive à frente vários projetos. No final dos anos 90, o Brasil passava por um momento difícil e havia muita expectativa acerca de melhorias no país. Enquanto uma pastoral social, levantávamos vários debates a respeito de temas importantes daquele momento. Assim que ingressei na UnB, em pouco tempo me engajei ativamente do Centro Acadêmico e na Empresa Júnior (Socius), da qual fui diretor por dois anos. Não cheguei a disputar e ocupar o DCE. Preferi desenvolver um trabalho de base fora e dentro da universidade.

Já enquanto professor, prossegui com minha atuação política, dessa vez no campo das políticas educacionais e de juventude. Nunca tive apreço por cargos e estruturas. Também não fui muito atuante na esfera sindical. Exercia uma militância mais próxima do debate público e do processo de formulação das políticas. Em 2015, iniciei uma parceria com a Coordenação Regional de Ensino de Santa Maria-DF, passando a atuar na formação continuada de professores e na articulação dos grêmios estudantis da cidade. Em 2016, dei início ao projeto Política de A-Z, que promove educação política nas redes sociais e em escolas do DF. Desde o início, já visitei mais de 20 instituições públicas e privadas para proferir palestras e promover cursos de formação política.

Assim que retornei da Espanha, lancei minha pré-candidatura à deputado distrital pela Rede Sustentabilidade. Também sou membro dos movimentos cívicos Agora! e Acredito. Ambos vem construindo uma proposta muito bonita para o Brasil e pretendem impactar o cenário eleitoral deste ano com uma agenda de combate às desigualdades e promoção da justiça social.

Por que você quer ser candidato a deputado distrital?

Porque Brasília merece representantes melhores. Sem cair em generalizações, não foi à toa que Câmara Legislativa ficou conhecida como “casa dos horrores”. Há inclusive quem defenda sua extinção, o que não é possível neste momento. Sendo assim, nossa única opção é melhorar a qualidade da representação. Quero colocar minha formação e experiência à serviço do DF. Entrar na política partidária para disputar as eleições foi uma decisão muito difícil. Concorrer com ricos, poderosos e mentirosos é um grande desafio. O dinheiro ainda manda no processo eleitoral. Temos muitas fraudes, compras de voto, falsas promessas e trocas de favores. Mas em 2018 também teremos pessoas jovens, criativas, éticas e comprometidas com os desafios da população. Considero-me uma delas.

Quais as suas propostas caso seja eleito?

O que todo político eleito deve fazer: servir à população e não a si mesmo. Mandatos são instrumentos para efetivar direitos e melhorar a vida das pessoas. Jamais devem ser utilizados para manter privilégios e defender interesses corporativos. De início, quero cumprir aquilo que é papel de um deputado distrital: fiscalizar o GDF, definir o destino do dinheiro público com base em prioridades e propor leis relevantes. Por isso, desde já assumo o compromisso de não indicar cargos em secretarias ou administrações regionais, coisa que muitos deputados fazem. Assim, ficam com o “rabo preso” e não exercem seu papel fiscalizador. Defendo também que política não é profissão. Por isso, caso seja eleito, exercerei apenas um mandato como deputado distrital e não disputarei a reeleição em 2022.

Meu gabinete será aberto e participativo. Todas as reuniões serão transmitidas ao vivo pelas redes socais. As emendas parlamentares (R$18 milhões por ano) serão definidas por orçamento participativo, ouvindo os cidadãos das 31 regiões administrativas do DF e priorizando as áreas mais pobres. O gabinete terá semanas temáticas (saúde, educação, mobilidade, cultura, segurança…) e ficará aberto à colaboração dos diversos setores da sociedade civil. Dessas semanas sairão projetos de lei e ações feitas em coautoria com grupos, entidades e movimentos. Terei um aplicativo para que os cidadãos registrem os problemas de suas regiões. Ao recebê-los, encaminharei aos órgãos responsáveis do GDF e acompanharei sua resolução. Haverá transparência total quanto aos contratados, sua formação e função. Será um mandato econômico e que adotará integralmente as propostas do projeto de iniciativa popular Câmara+Barata.

Do ponto de vista temático, meu foco serão as políticas de infância e juventude. Fiscalizarei intensamente as secretarias responsáveis pelos direitos das crianças e dos jovens, em especial as de Educação, Cultura, Trabalho, Saúde e da Criança. Apoiarei todas as iniciativas que promovem o bem-estar dos meninos e das meninas do DF. Mobilizarei o que há de melhor em nossa cidade. Tem muita gente boa promovendo inovação por aí, mas ainda sem apoio e reconhecimento. Me envolverei em todos os temas que interessam ao nosso povo. Um ponto sensível e ao qual quero me dedicar é a mobilidade urbana. A capital do Brasil e sua população não merecem esse modelo de transporte público arcaico, caro e ineficiente. Enfrentaremos esse problema de frente com o apoio da população.


O que precisa ser mudado na Câmara Legislativa?

Os deputados. A CLDF tem um grande potencial. Há servidores de alto nível e uma estrutura que poucos parlamentos do Brasil possuem. O problema é que tudo isso tem sido mal utilizado e colocado à serviço dos próprios distritais. A CLDF não cumpre seu papel fiscalizador porque vários deles têm cargos em administrações e secretarias ou porque suas empresas possuem contratos no GDF. A renovação dos nomes não veio acompanhada dos métodos. Na CLDF, há filhos de ex-deputados, apadrinhados e representantes de grupos que sempre ocuparam cadeiras por lá. Precisamos romper esse continuísmo dos interesses corporativos.

Outra coisa que precisa mudar é o seu custo. Trata-se do legislativo mais caro do Brasil. Um deputado distrital custa mais do que um deputado federal. Por isso, defendo integralmente as propostas do projeto popular Câmara+Barata: fim da verba indenizatória (utilizada para alimentação dos deputados, combustível, manutenção de escritórios, consultorias e outros gastos), redução da verba de gabinete (contratação de funcionários), diminuição dos gastos com publicidade e aumento da transparência. Mas vou além. O salário de R$ 25.322,25 é muito alto. Proponho que haja uma redução inicial de, no mínimo, 30% desse valor. Aí sim, diminuindo os privilégios e salários exorbitantes, atrairemos pessoas que querem realmente trabalhar pela cidade e não enriquecer às suas custas.

Qual Distrito Federal merecemos?

Um Distrito Federal sem desigualdade. Temos a pior distribuição de renda entre as 27 unidades da federação. Há uma concentração absurda dos serviços essenciais, da oferta cultural e das oportunidades. Chama a atenção o fato de que as regiões mais pobres são aquelas com maior percentual de crianças e adolescentes na população. Nosso futuro está abandonado. Os desmandos políticos dos últimos 30 anos criaram graves problemas e que exigirão muito esforço para solucioná-los. A crise hídrica é um exemplo disso. Há regiões que não possuem sequer um hospital ou faculdade. A baixa oferta de trabalho e educação nos territórios faz com que milhares de pessoas se desloquem diariamente ao Plano Piloto, fazendo uso de um transporte precário e sem segurança. Aproveitando que estamos no mês da mulher, vale lembrar que temos a maior desigualdade salarial de gênero, bem como um dos maiores índices de violência contra a mulher. Esses são alguns dos maiores desafios que temos.

Acredito que o DF tem um potencial enorme. Podemos ser referência para o Brasil em todos os serviços e políticas. Temos uma gente criativa, inovadora e que ama a cidade. Isso precisa ser potencializado e mobilizado. Por esta razão, é mais do que urgente elegermos pessoas qualificas e preparadas para encarar os nossos desafios.

O que fazer para melhorar Brasil?

Efetivar a Constituição de 1988. Desde sua promulgação, houve avanços e retrocessos. Nosso pacto democrático ainda não foi consolidado. Para isso, precisamos urgentemente de reformas estruturais: tributária, política e do modelo de Estado. Há que se rever o pacto federativo e a divisão do orçamento entre união, estados e municípios. Precisamos desburocratizar as atividades produtivas, especialmente de pequenos e médios empresários. Devemos assumir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e colocar o Brasil de verdade no século XXI. Acabar com o fisiologismo que estraga a administração pública mediante a indicação política nos cargos de gestão. Passou da hora de acabar com os privilégios de juízes e políticos. Há que se ter mais transparência na relação entre empresas e governos. Não podemos mais tolerar a impunidade com a corrupção. Devemos avançar no diálogo e destruição dos muros que nos separam. Adversários não podem ser vistos como inimigos. Divergir é parte da democracia, mas destruir o outro abre espaço para o autoritarismo. Precisamos perseguir os objetivos da república, principalmente a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades. É dever de todos os governos, organizações, empresas e cidadãos trabalharem para isso.

Como analisa o governo de Michel Temer?

O governo Temer é responsável por um dos períodos mais sombrios e catastróficos da história política brasileira. Não apenas pelo fato de termos o primeiro presidente em exercício denunciado por um crime comum. Ou por quase a metade dos seus ministros ser investigada ou citada na Lava-Jato. Nem por ser sustentado por um Congresso recheado de políticos denunciados. É sombrio e catastrófico porque está levando o Brasil ao passado. Suas reformas atropeladas e sem participação social aumentarão as desigualdades. Nenhum país do mundo limitou os investimentos públicos por 20 anos. Isso é uma aberração, considerando que estamos em uma economia dinâmica e com adaptações contínuas. Flexibilizaram os crimes ambientais, o trabalho escravo e a corrupção. Para mim, está claro que a grande missão desse governo era, como dizia Jucá, “estancar a sangria”, frear a Lava-Jato, destruir as instituições e colocar em prática o projeto de entrega das nossas riquezas nacionais.

Por que é necessário fazer política?

Não podemos virar as costas para a política. Não há solução que não passe por ela. O que os políticos vigaristas mais querem é que as pessoas odeiem a política e dela se afastem. É hora de unirmos forças. Busquemos o que nos une, não aquilo que nos afasta. Podemos divergir em alguns pontos, mas certamente convergimos em outros. Estamos diante de um momento delicado da nossa história. Corremos sérios riscos de dar mais passos para trás. Por isso, precisamos renovar com critérios. Não tenham medo de apoiar pessoas comuns na política. Aliás, nós é que melhor entendemos os problemas da nossa cidade, pois os experimentamos na pele.

Convido o seu leitor a conhecer minha história e os projetos que tenho para essa cidade que tanto amo. Vamos conversar. Posso ir à sua casa, escola, faculdade, empresa, igreja ou onde desejar. Não tenha receio. Ouse e seja um agente de transformação social. Vamos falar de política. Vamos falar de Brasília. Acima de tudo, vamos agir!

Um comentário em “‘Não podemos virar as costas para a política. Não há solução que não passe por ela’

  • terça-feira, 20 de março de 2018 em 18:49
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    Parece utopia, mas em análise crítica é realmente o que precisamos para Brasília e para o Brasil. Eu Acredito! Não temos outra alternativa a não ser a introdução de pessoas que realmente sentem o problema na própria pele. Excelente ponto de vista!

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