José Geraldo: “Tudo começa com a censura e termina com a tortura”

“A Universidade é um lugar em que o pensamento não pode ser inibido. Tudo começa com a censura e termina com a tortura”,

solicitamos ao jurista José Geraldo de Souza Júnior que analisasse o atual momento político-institucional pelo qual passa o Brasil, com sucessivas tentativas de quebrar a autonomia da Universidade pública, em paralelo com o golpe de 1964.

O jurista José Geraldo de Souza Júnior, ex-reitor e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), foi autor de uma representação contra a tentativa de interferência do Ministério da Educação (MEC) em um curso sobre o golpe de estado de 2016 que está sendo ministrado pelo professor Luis Felipe Miguel, do Instituto de Ciência Política da instituição. nós conversamos com ele sobre esta iniciativa.

O professor explica que na verdade foram duas ações, uma à Comissão de Ética Pública da Presidência da República e outra ao Ministério Público Federal. Ele analisa que por conta das ações, mas, sobretudo, devido à resistência da academia, com mais de 30 outras Universidades públicas aderindo à iniciativa do colega Luis Felipe, e a repercussão internacional do caso, houve um recuo do ministro Mendonça Filho.

Antes dele falar sobre as representações, solicitamos que o professor analisasse o atual momento político-institucional pelo qual passa o Brasil, com sucessivas tentativas de quebrar a autonomia da Universidade pública, em paralelo com o golpe de 1964. “O autoritarismo começa com a censura e termina com a tortura”, alertou.

O professor José Geraldo, que é coordenador do Direito Achado na Rua, um grupo de pesquisas da Faculdade de Direito, também analisou as últimas investidas do Judiciário contra o estado democrático de direito, sobretudo as posturas do polêmico ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e da presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia.

Professor, antes de a gente conversar especificamente sobre a iniciativa do senhor contra a tentativa de interferência do MEC no curso sobre o golpe de 2016, gostaria que fizesse um paralelo entre 64 e 16, ante essa percepção que temos que a Universidade, como representação do pensamento livre, do projeto de desenvolvimento da sociedade, do país, torna-se uma das primeiras vítimas dos regimes arbitrários.

O primeiro paralelo é que naquela conjuntura de 64, a construção do golpe de estado ocorre ainda mantendo a expressão formal da institucionalidade, com Congresso funcionando, o Supremo Tribunal Federal funcionando, a Constituição vigorando. E depois imprimiu sobre essas instituições, inclusive sobre a Constituição, uma interferência de força, que foi a sistemática dos atos institucionais que subordinavam o modelo institucional e jurídico. E isto permitia aos auto-constituídos governantes a capacidade de interferir nas instituições, suspender o seu funcionamento, retirando os direitos políticos dos agentes públicos, aposentando compulsoriamente ministros do Supremo…

As instituições, de um modo geral, foram objeto de intervenção direta, como no caso do Congresso, o seu fechamento eventual, e o sistema de cassação de mandatos, quando os parlamentares exercitavam aquilo que é o núcleo ativo da função parlamentar, que é a crítica, a capacidade de se opor às formas hegemônicas de poder político. Além dos artifícios de configurar maiorias convenientes ao desígnio dos objetivos do próprio golpe, como, por exemplo, a inserção no Senado Federal da figura logo apelidada de senador biônico – para lembrar uma série de TV que havia na época, de um homem cibernético, um homem artificial – que servia para caracterizar as maiorias necessárias para manter a aparência formal de institucionalidade no campo das instituições e no campo do aparato jurídico.

Por isso que tudo é que 64 foi caracterizado como um golpe e sob esse aspecto todas as instituições se viram afetadas, inclusive a Universidade, que por meio de um sub-produto do sistema de segurança nacional, que tinha nos atos institucionais o seu parâmetro, foram objetos de decretos que permitiam a interferência nas Universidades. Seja para vigiar a ação dos agentes acadêmicos, por exemplo, com a criação das divisões de segurança e informação, estruturas de monitoramento da atividade de pensamento e de crítica no espaço da Universidade, sejam intervenções diretas como é o caso da Universidade de Brasília, que logo em 1964, dois anos depois de criada com uma promessa emancipatória que estava no projeto de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, foi alvo de sucessivas ocupações policiais-militares, com prisões, com banimentos, demissões de professores e servidores, e a perseguição a estudantes.

Tudo isso a partir do decreto-lei 477, uma estrutura normativa derivada dos atos institucionais, permitiu esse tipo de interferência no espaço da ação universitária e proibia toda forma livre de organização dos elementos constitutivos da Universidade, estudantes e professores. E a UnB, por exemplo, logo foi submetida a isso e já em 1965, quando ela tinha 230 professor, logo no seu começo, 215 sofreram a diáspora. Sobram 15! Houve mobilização parlamentar, inclusive com CPI [comissão parlamentar de inquérito] para examinar o caso da UnB. E essa história, da origem, no momento de criação da UnB, está muito bem documentada no livro de Roberto Salmeron, um dos que viveram a diáspora, um notável físico que hoje vive em Paris,vinculado a um dos mais importantes institutos de física do mundo.

Quando da criação da UnB, Salmeron foi convocado por Darcy Ribeiro para formar a área de Exatas da UnB. Depois de expulso, ele escreveu o livro Universidade Interrompida 1962/1966, que conta um pouco a história desse primeiro momento que a UnB sofreu. A Universidade continuou até 1977 vivenciando ações dessa natureza, que são a referência mais simbólica do esforço de conter o pensamento crítico e restringir os espaços mais plurais de reflexão e de avaliação das políticas e das ações de governança que se desenvolvem nas sociedades livres.

Há hoje uma percepção de que este golpe de 16 – que é um golpe extremamente sofisticado, por que não é um golpe pelas armas, mas fruto de uma ardilosa articulação de parte da eleite brasileira, tendo como pilares a mídia, o Judiciário e o Parlamento – foi estimulado e financiado, como o de 64, pelos norte-americanos. O senhor concorda com isso?

Perfeitamente. Na funcionalidade as circunstâncias se equivalem. A diferença é que se aperfeiçoaram desde então de tal modo que atualmente os golpes – e isto inclusive já foi reconhecidos como tais pelas organizações internacionais – são de natureza político-parlamentar, judicial e midiático. Temos como exemplo aqui na América do Sul, além do Brasil, Honduras e Paraguai. O desenho é igual. Eles têm a forma de justificação jurídica, com uma leitura conveniente, com foco apenas na dimensão formal dos enunciados normativos e que envolve também nesse aspecto o próprio aparato judicial, que não podendo conter e denunciar a violação material dos fundamentos constitucionais da sociedade se acomoda ao modelo de aplicação interessada do aparato normativo.

Em 64, como agora, isso tudo foi ativado. A diferença é que em 64 o desencadeamento da ação de radicalidade destituinte do governo legalmente constituído e eleitoralmente legitimado se fez com a ponta de lança, com a comissão de frente, dos tanques. Agora os militares estão na retaguarda. São aqui e ali chamados como fantasmas ou pontualmente para intervir, como agora no Rio de Janeiro. Mas lá em 64, como agora, há todo um processo de ideologização do movimento, toda a construção de uma expertise argumentativa, de toda uma narrativa, para sustentar a base retórica do golpe.

Hoje, com a facilidade da internet, é possível rastrear os sistemas de financiamento das organizações que na época, como agora, se constituíram para produzir narrativa, para criar base ideológica para o golpe. A internet mostra, por exemplo, transferências de recursos das grandes corporações por suas agências de fomento cultural, como os irmãos Koch [os três bilionários norte americanos que, por meio do Instituto Charles Hoch, financiam grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) no Brasil]. Todas interferindo para fazer prevalecer o pensamento que favoreça o golpe…

Como o Jorge Paulo Lemann.

Exatamente. Aqui temos também o mecanismo das agências de indexadores interferindo no sistema e no comportamento mercadológico.

Por exemplo, temos depois do golpe um aumento frequente de combustíveis, que em outro momento impactaria na inflação, mas que agora não acontece. Seria por conta dessa interferência?

Sim, claro. Hoje há um uso seletivo e orientado do movimento da economia, da dinâmica do comportamento de mercado, para criar essa condição, vamos disse assim, favorável de mobilização a favor do novo governo. E aí entra o papel dos meios de comunicação. Então, lá como aqui se percebe bem claro as interferências internacionais.

Voltando à Universidade pública, hoje há interferência norte-americana, como houve pós 64, com os acordos MEC-USAID, por exemplo?

Sim. Os acordos derivados do Banco Mundial, por exemplo. Os financiamentos com uma configuração de servir aos interesses de acumulação, como um esforço tremendo da OMC [Organização Mundial do Comércio] no sentido de deslocar para sua agenda a questão da regulação do sistema de serviços públicos, incluindo os de educação, sobretudo, os de educação superior e educação à distância, que não poderiam ser negligenciados, por representar uma reserva financeira e econômica, a mais valiosa do ponto de vista da lista de serviços no interesse da acumulação. Enquanto que em nosso país, isso era visto por conta das mobilizações de recuperação da democracia, com a exigência de que a educação fosse um bem social, um direito e não uma mercadoria, uma função pública, acessível ao privado, mas sob a condição de cumprir requisitos da sua função social.

As orientações do Banco Mundial eram no sentido de privatizar a educação superior e, portanto, é preciso solapar a Universidade, em dois pontos: sufocando a sua capacidade de resistência, que é uma capacidade intelectual crítica; e sucateando a sua forma de se organizar e de financiar as expectativas acadêmicas de reflexão sobre projeto de sociedade, projeto de país. Não por acaso, nesse exato instante a gente vê movimentos nessa direção de reduzir a visão política sobre a função social da Universidade e ao mesmo tempo de sufocar sua capacidade de subsistência, de financiamento.

Basta ver a PEC do Fim do Mundo, que sufocou os investimentos sociais, nos quais, por exemplo, a educação e a pesquisa. E logo isso teve impacto na redução orçamentária, de um lado, no tocante ao orçamento da Ciência e Tecnologia e da Educação, e de outro no monitoramento da execução do orçamento sob a perspectiva de inibir a autonomia universitária. Uma Universidade como a UnB, por exemplo, que tem uma capacidade de arrecadação própria, incluindo as rendas de seus bens imóveis, que foram destinados lá na origem como as projeções e que hoje formam um acervo de uma carteira imobiliária muito grande, não pode executar diretamente esses recursos senão nos limites dos desembolsos mensais fixados pelo supervisor financeiro do Ministério da Educação. Quer dizer, não pode investir, não pode aplicar, não pode movimentar.

Ou seja, mais um atentado à autonomia.

Exato. É um atentado à autonomia. Mas também é uma política. Darcy Ribeiro dizia que a questão da Educação não é, enquanto crise, a resultante de um acaso histórico. É um projeto. As Universidades hoje estão mantendo a sua estrutura instalada, contida na sua expansão, levando em conta a clivagem entre a população potencialmente acessível à educação superior – e não só pelas Universidades, mas também pelos institutos federais de educação tecnológica – e este modelo redutor.

Por exemplo, hoje já se fala no fechamento de cursos de Humanidades, porque não há interesse em desenvolvê-los, porque querem reprimir o desenvolvimento do pensamento crítico, que é o que historicamente o papel da Universidade. Eu falo da Universidade ocidental. Eu nem me refiro à oriental, que é anterior ainda. Mas a ocidental tem mil anos, e ela é, portanto, uma estrutura política anterior ao próprio estado. E ela se organiza de maneira a criar seu espaço de autonomia de pensamento mesmo quando ainda não existia a forma de estado e já se configurava como um lugar de autorregulação, de capacidade de estabelecer suas próprias regras de funcionando.

É claro que isso é matizado com o tempo, mas dessa história fica aquilo que são os dois pilares com os quais a Universidade é caracterizada: se autorregular, do ponto de vista de sua organização funcional e acadêmica, pois é ela que estabelece como pode ser feita; e de que a cátedra é livre e que não pode ser feita nenhuma interferência. Pode, sim, haver contradição, do ponto de vista de que pode se constituir outra cátedra contrária do que a primeira afirma, mas não pode haver interferência.

Então aproveito esta deixa para entrarmos no tema da representação que o senhor liderou contra a tentativa de interferência do ministro da Educação, Mendonça Filho, no curso sobre o golpe de 16. Como foi essa iniciativa?

Foi uma resposta a um terrível mal-estar decorrente do anúncio que o ministro fez no sentido de que adotaria providências funcionais para inibir a iniciativa de um professor que propôs um programa acadêmico para discutir na Ciência Política as características do que houve politicamente em 2016 e que ele designou como um golpe, e que tem base teórica para caracterizar que tenha sido mesmo um golpe. Basta comparar a história política dos golpes, sobretudo, no ocidente, desde o século 19, que já deixaram um padrão para que eles sejam configurados na sua funcionalidade.

Esse mal-estar recuperou logo no início do processo político de autoinstalação do novo governo e estava presente nos discursos das autoridades, em direção, sobretudo, na questão da Universidade. Em inúmeras ações aqui e ali, que mobilizavam ora o Ministério Público e ora o Judiciário, mas que se concretizaram em notificações e intimações de professores pelo Brasil afora…

Então este tipo de interferência já vinha acontecendo?

Sim, já vinha acontecendo. Tivemos, por exemplo o caso de uma professora da Universidade Federal de Minas Gerais, professora de Direito Sindical, que pautou o debate sobre as reformas trabalhistas e o Ministério Público vem e ativa Polícia Federal para investigar e eventualmente submeter a indiciamento.

Isso antes das ações truculentas, que começaram em Santa Catarina e acabou resultando no suicídio do reitor?

Nesses casos de Santa Catarina e Minas são ações administrativas correicionais, que mudaram o seu caráter. As Universidades sempre foram submetidas a um sistema de auditoria e controle, envolvendo a AGU, TCU, CGU, que têm as suas visitas regulares, que fazem seus programas de monitoramento. No TCU tem uma relatoria anual designada para acompanhar as Universidades. E esse tem sido o modelo. Quando as irregularidades são caracterizadas, ativa-se o sistema correicional e são abertos os procedimentos para apuração.

Por que houve essa dimensão, que acabou envolvendo Ministério Público e Polícia Federal, inclusive nos padrões da Operação Lava Jato?

Eu acho que é o simbólico de um momento que está tudo ligado ideologicamente a esta cultura que preside a ideologia do golpe e que gerou um caráter repressivo, policial, com expressões que só tem precedentes no fascismo, que suprime o princípio de presunção de inocência, o direito de defesa, o devido processo legal e libera uma cultura punitivista. A cultura punitivista tem um efeito simbólico desde a Bíblia, chamada de função sacrificial, que gera os bodes expiatórios para efeito do espetáculo, da exprobação, da humilhação pública, tudo para exercer um controle, o poder simbólico.

Essas investidas partiram do MEC?

Não. O MEC nunca interferiu nisso, desde 64. Quem vem fazendo esse trabalho são movimentos com essas visões fascistas, dentro e no entorno das Universidades. São as visões de redução do social e do pensamento crítico desenvolvido dentro das Universidades. Mas pense as várias ações com características de controle de constitucionalidade, de declaração de constitucionalidade, de cumprimento de preceito constitucional que o Democratas, por exemplo, intenta periodicamente no caso da UnB, inclusive contra a política de cotas…

O partido do ministro.

Exatamente, o partido do ministro da Educação. Inclusive se valendo do aparato derrotado no debate nacional, mas que tem ideologicamente apoio, numa visão hierárquica, de uma sociedade como a nossa que mal saiu do colonialismo. Então, se a gente observar bem, no plano da capacidade interpretativa, inclusive da crítica acadêmica, sobre um conjunto de políticas que são desenvolvidas, esse partido tem sido o agente de objeção, usando todos os meios, pela ativação dos meios de comunicação, pelo acesso às grandes mídias, pela ativação do Judiciário, com o uso das medidas de revisão constitucional. São os casos das cotas, o caso das demarcações de terras indígenas e quilombolas, que sofrem ações contrárias, todas originárias do aparato jurídico do Democratas. E agora ele é o artífice da nova governança, agora ele tem máquina institucional, daí ativar, por exemplo, atuando no campo do Ministério da Educação, com essa configuração, exercita a sua interferência direta. E a gente não pode aceitar isso.

Voltando à representação contra o ministro…

Então, foi para salvaguardar o espaço crítico autônomo da Universidade. Quer dizer, a simples enunciação da possibilidade de interferência no âmbito da liberdade de ensinar – que é uma categoria constitutiva dos direitos fundamentais, a liberdade de consciência de expressão, de comunicação, sem falar daquelas ligadas ao sistema de proteção à educação, que estão tanto na Declaração Universal dos Direitos Humanos quanto na Convenção Interamericana de Direitos, quanto nos protocolos derivados dela, como de São Salvador – não se pode admitir. E se não se fizer nada, daqui a pouco estaremos de novo com o sensor dentro da sala, com o comissário verificando os títulos dos livros que são adqueridos para as bibliotecas, com as caracterizações das teses e dissertações que são defendidas, e da criminalização do pensamento e da crítica. Então a motivação foi a salvaguardar o espaço histórico e político da autonomia da Universidade que a constituição preserva.

A Universidade, historicamente, se instalou e se estabeleceu, anteriormente à organização do Estado, como um lugar em que o pensamento não pode ser exibido, ou seja, ele tem que ser autônomo. É por isso que a nossa Constituição diz que a Universidade se organiza autonomamente, se dando a sua própria regulamentação, na dimensão administrativa, financeira e acadêmica. O que é preciso ver é se, na produção dos projetos pedagógicos, os elementos regulamentares e estabelecidos no espaço da Universidade foram atendidos, que é o caso de todas as situações que mencionei. A disciplina da professora de Minas Gerais, que estava dentro do modelo pedagógico e curricular daquela Universidade.

Em todos os lugares em que a gente assistiu reações a iniciativas como essas, elas se expressaram de modo criminalizador. Há notícias de professores indiciados em procedimento criminal porque organizaram mesas de debate sobre temas que, na percepção do agente político do momento, pudesse representar uma avaliação crítica ou negadora dos fundamentos das políticas em curso.

Onde mais?

Além de Minas, tivemos notícias de Goiás, com por exemplo a Universidade hoje de Jataí, que naquela altura era campus avançado da Universidade Federal de Goiás, mas hoje já criada como Universidade. Também na própria Universidade Federal, em Goiânia, e agora aqui na UnB. Então, esse é inaceitável. A simples disposição de querer fazer esse tipo de interferência é uma violação inaceitável.

Esse é o primeiro movimento que tem a representação. O segundo, não é defender somente o espaço da Universidade, mas tomar uma posição para não deixar que se repitam os mesmos movimentos que no passado trouxeram para nós a tragédia, ainda não superada, daquilo que representou as ações da ditadura instalada com golpe de 64. E que hoje são objetos do que a gente chama de “justiça de transição”, quer dizer chamar à responsabilidade aqueles agentes que produziram esses atos em violação a normas que não podem ser objeto de redução, por exemplo, a proteção da vida, da dignidade e da liberdade, e que se diz inclusive as leis de anistia não podem proteger torturadores. Começa assim, com censor e termina com torturador.

Em que pé está hoje a representação, qual resultado?

Na verdade foram duas. Uma dirigida à Comissão de Ética da Presidência da República, que recepcionou a representação e notificou o ministro para que se manifestasse, o que ele já fez. Então agora cabe aguardar o modo como se dará o exame colegiado da representação. A outra foi feita à Procuradoria-geral da República, que deve distribuir a um procurador para fazer os estudos de admissibilidade da representação, para efeito de adotar as medidas que couber. Seja como for, pelo que eu sei, o ministro não tomou nenhuma medida contra o curso, deve ter sido bem aconselhado.

Recuou.

Sim, mas nós não vamos ficar desatentos. Esta é uma situação que a gente tem que levar às últimas consequências. Vamos inclusive examinar a possibilidade de representar junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, onde cabe examinar uma agenda que verifique às bases da realização democrática – que é respeitar um conjunto de fundamentos democráticos, inclusive liberdade de comunicação, informação, expressão e de consciência, que são as que mais sofrem em sistemas de paroxismo político, incluindo os de golpe – se nas intenções do ministro não há ameaça à democracia brasileira.

E também está havendo uma resistência da academia. Já vão para quase quatro dezenas de universidades que resolveram adotar a iniciativa do professor Luis Felipe. Como o senhor vê isto?

Esta é a principal resposta. Os direitos se realizam no seu exercício. Enquanto eles não se exercitam, eles se tornam apenas potenciais. Então, a melhor resposta da autonomia foi esta: o conjunto de mais de 30 universidades que imediatamente se constituiu, com observância aos parâmetros acadêmicos de criação de disciplinas, de definição de planos de curso, de homologação das propostas pelos conselhos próprios, inclusive algumas fora do Brasil. E também mobilizou aquilo que é uma espécie de comunidade cosmopolita. Por toda a parte o pensamento acadêmico se mobilizou para mostrar o obscurantismo dessa medida contra a iniciativa do colega da UnB.

Para finalizar, gostaria que falasse sobre o grupo de estudos que o senhor coordena na Faculdade de Direito, chamado Direito Achado na Rua, e que ainda analisasse a declaração do ministro Gilmar Mendes, do Supremo, que, ao recursar um habeas corpus coletivo contra a prisão após condenação em segunda instância, refutou o direito achado na rua.

A expressão “direito achado na rua” é uma metáfora, que remete àquilo que é, teoricamente, a preocupação de se configurar as fontes do Direito. E a gente sabe que, do ponto de vista filosófico e do ponto de vista político, ainda que de um modo simbólico, há uma unanimidade sobre a consideração de que a fonte do Direito é materialmente o povo que se constitui socialmente. Portanto, todo direito é achado na rua, porque ele se constitui nas sociabilidades e na mediação que busca expectativas legitimadoras.

Mas é uma metáfora, que, do ponto de vista acadêmico, envolve uma articulação de dois movimentos que têm que ser trabalhados. Um de natureza teórica, quer dizer, há todo um acumulado crítico de teorias que fundamental a perspectiva da emergência social do direito e da necessidade de articular a produção do jurídico com as fontes que o formulam, e que permitem as modificações históricas que a gente assiste na compreensão do Direito. O outro movimento está no plano político. O ministro está exercitando as duas funções, teórica e política. Está disputando a narrativa. Ele está reconhecendo que há um lugar, teórico e político, para discutir o Direito com legitimação, que é a rua, no seu simbolismo.

A outra questão é como se organiza isso, como fonte de pesquisa, como base material dos estudos, que é o projeto Direito Achado na Rua, que Universidade de Brasília e em outras sustenta inúmeros programas de ensino e extensão. E do ponto de vista da combinação deles, o projeto, além de ser uma linha de pesquisa, orienta na produção de trabalhos nessa linha.

Em relação à decisão sobre o habeas corpus, em primeiro lugar há um fato interessante, porque ele negou, mas não negou pela legitimidade da petição e, portanto, ele reafirmou o princípio do direito que está na rua, que é o movimento do coletivo. No mérito ele estabeleceu uma impossibilidade de cumprimento do pedido, porque ele afirmou que seria muito abrangente e que se perderia de vista algumas situações individualizáveis que poderia estar em contradição com o pedido genérico. E outro fato interessante é a expressão desse momento em que todas as instituições estão um pouco desorientadas, no tocando a afirmar qual é a sua função social, seu papel social e político, e também lidar com as dimensões culturais que organizam o modo de pensar, de pensar o jurídico e seu direito, que envolve tensões entre aquilo que é a nossa formação intelectual.

Quando um ministro do Supremo fala, a verbalização nunca é ociosa, as palavras ele enuncia tem força constitutiva, portanto, elas têm que ser levadas a sério. Quando ele contradiz o direito achado na rua, no fundo ele está afirmando que há uma disputa narrativas. Aquela que está no simbólico, teórico e político, da configuração no campo de pesquisa em Direito e é caracterizado neste fundamento em que está na rua, e a que está na base do pensamento que organiza o modo de ver jurídico desse ministro quando decide grandes causas no Supremo Tribunal Federal. Não é a primeira vez que ele faz isto. A primeira foi quando se discutiu a questão das algemas e afirmou que a decisão do Supremo não poderia ser diante do clamor das ruas e que o direito é achado nas leis e não nas ruas. Depois ele se referiu da mesma forma mais duas vezes, uma entrevista a uma revista e outra no julgamento das contas da chapa Dilma-Temer, no Tribunal Superior Eleitoral.

Nós, no entanto, temos sustentado que o Direito achado na rua é a base de um constitucionalismo achado na rua, que leva em conta aquilo que no social são as demandas de uma formação econômica, cultural, política à brasileira, mal egressão do colonialismo, do escravismo, que chegou até ao paradoxo de dispor de uma constituição liberal num sistema escravocrata.

O senhor não acha que, neste simbólico e nesta metáfora, as imagens que se tem das ruas hoje, reforçadas pelos grandes meios de comunicação, são as manifestações da direita fascista, em que pese o contraponto das manifestações contra o impeachment e a retirada de direitos e a reação popular que acontece agora com a morte da Marielle? O senhor não acha que esse direito achado na rua possa ter esse viés político e ideológico por causa disso?

Mas é a rua sendo disputada. A rua é o lugar da procissão, é o lugar da vadiagem, é o lugar das manifestações da direita e das manifestações da esquerda. O grande escritor Marshall Bergmann dizia que a rua é o lugar onde a multidão se transforma em povo. Então, a rua tem multidão, tem hordas, tem expressões de exacerbação da política, a rua tem linchamento, mas a rua também é um simbólico do lugar do acontecimento, onde acontecem o comício, a reivindicação social. Portanto, disputa-se a rua para que ali haja um lugar que a opinião circule e forme convencimentos. E na disputa das narrativas, sobretudo por quem tem o controle da comunicação, vão aparecer os “vândalos” e as “famílias”, os “patriotas” e os “vermelhos”, os entreguistas dos “valores familiares”, sendo, no entanto, que os verdadeiros entreguistas, que apoiam a entrega das riquezas nacionais, são esses travestidos de patriotas, que se apropriam e vestem a camisa da seleção.

 

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