‘Se queres a paz, trabalha pela justiça’

Por Alisson Lopes

No dia 22 de março de 2018, pela manhã, fui presenteado com a indescritível honra de participar compondo mesa e representando a Ordem dos Advogados do Brasil da seccional do Distrito Federal na sessão solene da Câmara dos Deputados em respeito ao Dia internacional do Direito à Verdade, ocasião em foi prestada nova e merecida homenagem à memória de Marielle Franco e de todas e todos defensores dos direitos humanos. Jamais esquecerei a oportunidade de ter conversado com a deputada Luiza Erundina, mulher forte e de atitude.  

No mesmo dia 22 de março, no período noturno, participei como presidente da Comissão da Memória e Verdade da OAB-DF do primeiro encontro das rodas de conversas sobre Regime militar e Redemocratização Brasileira, mesa composta pelos jornalistas Hélio Doyle e Matheus Leitão. O Matheus Leitão escreveu à magnífica obra “Em nome dos pais”, onde relata o processo de prisão e torturas sofridas por seu pai e sua mãe na década de 70 por serem estudantes envolvidos com organizações estudantis e panfletarem contra a ditadura civil-militar. Já Doyle, autor da obra “Assim é a velha política”, descreveu em sua participação a conjuntura política de 1964 até a 1985, destacando a falta de liberdade e a dureza da repressão à liberdade de expressão e afirmou que também existia corrupção no período do regime militar.

Discurso de ódio não pode ser considerado liberdade de expressão. Um discurso racista, por exemplo, em nossa legislação brasileira é crime. Temos sim que ter coragem de amar o próximo

Nesta semana no projeto Direito à Cidade iniciei com os estudantes os primeiros passos para conhecerem um pouco da obra de Platão, Aristóteles e Maquiavel. Não esqueci de conversar sobre o quanto foi a emocionante participação da sessão solene, experiência que certamente marcou minha existência.

Todo esse momento me levou a ler a obra “Dom Helder: O Artesão da Paz”, coletânea de palestras realizadas por Dom Helder e organizada neste volume por Raimundo Caramuru e Lauro de Oliveira. Vislumbrem esse pequeno trecho:  

“Quando enfrentaremos a ira dos poderosos; quando nos decidiremos a perder prestígio e favores; quando aceitaremos ver torcidas nossas intenções; quando aceitaremos até riscos maiores para ajudar as minorias abraâmicas e denunciar injustiças, em plano interno e em plano externo, e, sem cuja, a paz será simplesmente uma bela palavra vazia?” (Palestra realizada em Kansas City(USA), 15-1-72, durante a conferência Ecumênica sobre a guerra do Vietnã, patrocinada por Organizações Protestantes, Ortodoxas, Católicas e Judias, dos USA e do exterior).

Até quando? Reforço o coro de Dom Helder, cujo o título deste artigo – “Se queres paz, trabalha pela justiça” – dele empresto. Vociferar o discurso de ódio e destruição é mais fácil e conveniente  para alguns do que aceitar a diversidade e construir um consenso, amar é mais difícil do que odiar. Construir a paz requer compromisso, desprendimento e empatia, enquanto o ódio emerge por vingança e egoísmo. Discurso de ódio não pode ser considerado liberdade de expressão. Um discurso racista, por exemplo, em nossa legislação brasileira é crime. Temos sim que ter coragem de amar o próximo.

Encerro este artigo com o titulo da música de Beto Guedes e Fernando Brant: “O medo de amar é o medo de ser livre”.

 

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