‘Ah, menina’

O projeto Direito à Cidade vai crescendo devagar, mas sem parar. Quando apresentei o projeto nas instituições que sou docente, ele foi bem acolhido. Aliás, é sempre bom reforçar que este caminhar progressivo se deve ao poder coletivo dos profissionais da educação pública que abraçaram esta prática e dos vários parceiros que se dispõem a participar voluntariamente de palestras e conversas com os nobres estudantes. São mais do que aulas, são o fomento da esperança.

Na última quarta-feira (4) tivemos as importantes presenças do juiz de direito doutor Fábio Esteves e do educador professor-doutor Leandro Grass. Ambos, cada um com sua expertise, demonstraram aos estudantes que eles podem e são protagonistas de uma história brilhante.

E quando falamos de Direito à Cidade logo penso na violência que obstrui nossa liberdade de ir e vir, daí a inevitável conversa sobre segurança pública ou, pior, à falta de segurança pública. Penso também nas praças e parques abandonados pelo poder público.

Neste final de semana, andando por um dos parques da nossa cidade, vi uma mãe comemorando o aniversário da filha, a menina vestida lindamente de princesa. O parque tinha brinquedos enferrujados e até sujos, mas aquela mãe colocou numa parte coberta (o tempo estava nublado) uma mesa com um forro florido e com um grande bolo que aparentava estar delicioso. A princesa sorria e demonstrava alegria. Imaginei ela dizendo: “que festa!” Pensei, apesar do descaso do Estado, mãe e filha comemoravam juntas este momento único. Vislumbrei a grandeza daquela mãe que em um ato de amor profundo encheu meu coração de esperança e tenho certeza que aquela criança jamais esquecerá tal ato materno. Ela ocupou com dignidade um espaço, tão frequentado e muito pouco cuidado por quem deveria zelar por ele.

Eu vejo e escuto no cotidiano pessoas falando que na política todos são ladrões, todos são iguais, que não tem diferença, e resisto. Não vou me entregar. Pois enquanto uma mãe dentro de todas as dificuldades da vida parar para celebrar o aniversário de seus filhos eu vou ter esperança!

Para encerrar por essa semana segue na íntegra um poema da escritora e amiga Cristiane Sobral:

Ah, menina

Há liberdade nos meus cabelos fartos trançados;

Na ginga do meu quadril circulam achados ancestrais ;

Sou tronco de mangueira;

Espiral com energia do mato em transformação;

Muito forte pra acreditar na besteira da discriminação;

Empino meus cabelos pra cima;

Sorrindo como preciosa menina ;

Danço, transmuto a maldade

Vim para sacudir a branca cidade

Ninguém desfaz magia de criança;

Aqui o racista se cansa;

Nosso quilombo é vida.

(Livro Terra Negra, poema “Ah, menina”, Cristiane Sobral , editora Malê).

 

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