Projeto Direito à Cidade: a capoeira e a apropriação do espaço público

Por Álisson Lopes

A apropriação do espaço público pela capoeragem foge de um sistema pré-estabelecido de ocupação urbana. A capoeragem ocupa praças, parques, quadras esportivas, salões comunitários, associações, muitas vezes de forma improvisada e espontânea, ocupam estes espaços, desenvolvendo uma atividade comunitária, se apropria do espaço público em prol da coletividade. Este fenômeno contrapõe o individualismo de ocupação territorial do espaço urbano, da privatização do terreno baldio.

As rodas de capoeira no espaço público são abertas à comunidade, propiciam uma mobilização popular, atraem, fortalecem politicamente o movimento da capoeira de forma espontânea nas suas diversas vertentes. A capoeira mais uma vez me surpreende por promover a ocupação do espaço público, muitas vezes abandonado, e garantindo sua eficiência para a coletividade. O espaço público deve manter o caráter de atender o apelo popular, sendo em praças, parques e continuar atendendo a mobilização da comunidade, pois é neste território que se constrói a identidade do povo, tendo como desdobramento uma comunidade unida e humana.

A capoeira com negritude é ação afirmativa, capoeira que não nega teu mestre. Capoeira de Mestre Pastinha, que jogava com agilidade de um gato mesmo cego. Capoeira de Mestre Bimba, vulgo Três Pancadas, que era o máximo que seus adversários resistiam, que fez o então presidente da República Brasileira Getúlio Vargas prestar reverência. Capoeira de Mestre Tabosa, filho de Xangô; capoeira de Mestre Danadinho, arquiteto de primeira linha; capoeira de Mestre Pablo, meu mestre; capoeira de Mestre Huguinho, grande amigo; capoeira de Mestre Geléia, um exemplo; capoeira do Mestrando Tony Guará, que me ensinou a cair e levantar sorrindo; capoeira do Mestrando Bruce, jogador que não abre para ninguém; e do Mestrando Surubim, forte e leal. São todos amigos que formam a malta do bem, são meus amigos, meus irmãos de capoeiragem.  

Já disse Vinicius de Morais em composição com o parceiro Baden Powell:

“…Capoeira que é bom

Não cai!

E se um dia ele cai

Cai bem!…”

Não posso esquecer de Madame Satã, capoeirista sem temor. Não posso esquecer de Pedro Bala, personagem da obra Capitães de Areia, de Jorge Amado.

A primeira obra que li de Jorge Amado foi “Capitães da Areia”, mas com ela estudei também, ou melhor, pude vislumbrar a biografia do autor e sua militância ao defender as coisas do povo. Tempos depois fui impulsionado pelo próprio estudo da História brasileira a revisitar o universo dos meninos errantes do livro Capitães da Areia, porém não me contive somente a ele e em sequência ou consequência li e vivenciei a “Tenda dos Milagres”, com o mítico, emblemático Ojuobá como protagonista. Logo adentrei no terreiro do “Compadre de Ogun” e o livro da liberdade “ABC de Castro Alves”.

O escritor foi de fato um militante das causas do povo, por vezes sua voz, e pertenceu aos quadros do “PCBão”, antes do racha de 1962. Foi deputado do povo e sempre falando em seu nome. Em suas obras a militância política e o senso crítico brotam como uma nascente que empurra a terra, abrindo espaço para um filete de água que se torna uma correnteza.

Quando mergulho nas narrativas, descrições e ousadias do ativista Jorge Amado, também alimento o germe da inquietude que almeja transformações sociais dentro de mim. E, como ele, tenho sim a petulância de me comparar, mas bem menos brilhante, sou um homem do povo, da base, da massa e sou um sonhador. Gostaria de deixar, entre outras tantas coisas, aos meus filhos o gosto pela literatura e especialmente pelas obras de Jorge Amado.

Segue um texto incidental Ouro de Tolo…

Ouro de tolo

Ao nobre leitor, aquele que desprevenido começou a ler esse desabafo, o texto ouro de tolo que se segue é para descrever o inverso da sustentabilidade, da simplicidade e da discrição. Às vezes me sinto um chato completo, mas é que de uns anos para cá, tenho evitado certos tipos de pessoas, peculiarmente as ostentadoras, são homens, mulheres, ricos ou pobres, pois transcendem a questão de gênero, classe social e também a da etnia. Ler um livro, definitivamente, é melhor do que um papo enfadonho, neste intuito esse que vós narra vem se esquivando de conversas mais demoradas com pessimistas e também, não posso esquecer, os ostentadores, os derradeiros me incomodam pelo fato de que ostentar não é uma ação que se faça sozinho, tem que ter plateia, se possível babando de inveja. E para meu descontentamento sou constantemente alvo de tais tentativas, é sério, imagine ficar meia hora conversando com uma pessoa que prefere comprar um carro caríssimo, e economizar em saúde, em educação, comendo mal, morando mal, perdendo dentes para pagar um financiamento de um símbolo do ter para chegar ao orgasmo mostrando aos outros, o ápice do gozo, me desculpem o termo, é em ter um possante para compensar a falta de humildade. Olhem não me interpretem mal, gosto da riqueza, quero que todos sejam ricos, no mundo todo, inclusive eu, mas é que quando uma pessoa mede a sua felicidade em ter, é como encontrar o ouro do tolo, é vender a alma, é perder a essência. Não tenho inveja, nem despeito, ter inveja dos outros é muito mesquinho e disso estou fora. Quem é abastado, que zele por sua bonança, triste é quem acha que a vida é só ter, tendo ou não, só possuir, ruminar o flagelo do consumismo exacerbado. A hipóstase do ter, do consumismo como felicidade, contamina todas as instituições, apartam quem tem dos que não tem, não é uma questão de meritocracia, mas sim uma questão de falta de humanidade. Compreenda como a infestação da “febre do ter” domina o congresso, como é pernicioso este “Estado febril”, esse axioma dogmático. A sustentabilidade, de forma geral, é você ter o que precisa para viver com qualidade de vida, não precisa de ostentação, nem de consumo em exagero. Assim pode-se garantir a sustentabilidade para os que ainda virão.

 

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