Crônica do desencontro

Por Álisson Lopes

Certa vez numa das minhas andanças pela ruas e vielas desta contraditória cidade/capital, vi e ouvi uma pregação, uma sustentação digna de ser feita no púlpito do STF. Era um popular, um rábula talvez, um conselheiro, um contestador, sozinho um senhor que em sua altivez instrumentalizava palavras de ordem, de progresso, de amor. Ele detinha em seus braços como escudo um livro, de longe parecia uma bíblia, um alcorão, talvez a torá, mas curiosamente ao me aproximar pude  perceber que era a Carta Magna brasileira de 1988¸ a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que é a lei fundamental e suprema do Brasil, parâmetro de validade a todas as espécies normativas desta nação. Coisa que alguns legisladores insistem em ignorar e produzem leis inconstitucionais para com demagogia ter publicidade junto ao povo.

O errante senhor, parecia um idoso, um profeta ou profano, barba grande branca tendendo para o amarelo,  uma voz insistente e convicta, uma postura desafiadora em roupas simples e desbotadas. Jogava ao fraco vento e a robusta poeira da cidade dizeres de resistência, de união,  de ofensiva e luta , de poder ao povo, de povo ao poder, eremita no meio da cidade parecia falar para mim, catequizar , sensibilizar ou somente desabafar. Parecia alguém que a história marcou e deixou no passado, com marcas duras no rosto , mas não arrancou convicções que certamente fecharam portas, parecia alguém sem família, talvez não tenha feito família por optar por uma militância de massas, escolherá a humanidade como família, ou tenha sido abandonado por considerarem extemporânea sua ideologia, falava sem pudores, sem temores e aparentemente sem muitos ouvintes. Em pé , magro, sem pena em gastar a voz, com uma garrafa pet verde, supostamente com água. Defendia coerente com sua singela presença , uma postura, uma atitude , uma catarse.

A medida que me afastava desse intrigante agnóstico ou ateu, mas republicano, ainda era possível ouvir as palavras e frases tais como que para os trabalhadores pararem o país era necessário cruzarem os braços, sem dúvida  um subversivo logo ali. Era incontestável a sua disposição em falar , em manter um tom de voz alto e sereno, afetivo até. Já distante , sem mais ouvir aquele senhor , logo me coloquei a pensar em coisas que li , coisas que remetiam em  minha memória movimentos insurgentes na historiografia brasileira, e obras que descreviam fatos assim, os Sertões por exemplo, de Euclides da Cunha, ele tivera a incumbência de descrever a querela da guerra de Canudos, recordo nas páginas finais a descrição do desfecho trágico de uma utopia no sertão, o aniquilamento de um movimento, lembrei também de outro movimento dito como messianismo , o Contestado e o documentário “Contestado- Restos mortais” , esse derradeiro me provoca arrepios ao demonstrar depoimentos de historiadores, populares e até médiuns como porta vozes de entidades de outras esferas espirituais.

Pela idade que aparentava o militante ermitão em suas falas e proposições, análises de estrutura e conjuntura,  das teses , antíteses e sínteses apresentadas , o solitário orador demonstrava a compreensão da vida do povo brasileiro, dias depois voltei ao mesmo local , ele não estava lá , ninguém o conhecia, ninguém o viu, o velho militante provocou-me uma grande autocrítica, voltei com a disposição de conversar, de conhecer , ele não estava lá,  nada de sua defesa revolucionária que se não fosse pela firmeza e clareza beiraria o delírio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *