Livro conta a vida de Paulo Fonteles, um militante que inspirou minha geração

Biografia do advogado que defendia posseiros e figurava na lista dos marcados para morrer, foi lançada nesta quarta aqui em Brasília, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados

Por João Negrão

Quando saí para cobrir o lançamento do livro “Paulo Fonteles – Sem Ponto Final”, ocorrido no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 16, no meio do caminho muitas lembranças acabaram confrontando o jornalista, o militante e o admirador. Como jornalista poderia somente reportar o lançamento, comentar trechos do livro e reproduzir aspas do autor, dos parentes (filhos, sobrinhos e netos do Paulo), dos militantes contemporâneos dele e dos organizadores do evento. Mas não foi somente isto que aconteceu.

Latifúndio escravocrata e assassino

Os meados da década de 80 foram dramáticos para a vida política nacional. Estávamos saindo da ditadura, governo de José Sarney, Nova República, intensificação da luta política e meu partido, o PC do B, orientando para a defesa da soberania nacional, a luta anti-imperialista e a luta anti-latifundiária. O atraso do Brasil estava no entreguismo, no neo-colonialismo e no latifúndio escravocrata, improdutivo e assassino. Pouca coisa mudou em mais de 30 anos.

A luta contra o latifúndio era (e ainda é) heroica e tinha na linha de frente advogados e ativistas de movimentos sociais, como a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais), suas federações estaduais e os STRs (sindicatos de trabalhadores rurais) e os movimentos religiosos, como a CPT (Comissão Pastoral da Terra), ligada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Um desses advogados atendia pelo nome de Paulo César Fonteles de Lima, ou simplesmente Paulo Fonteles.

O livro de Ismael Machado conta toda a trajetória do Paulo, desde a liderança estudantil, a militância na antiga Ação Popular (AP), sua atuação em Brasília, a prisão com sua então esposa Hecilda grávida de três meses de Paulo Fonteles Filho, falecido recentemente, a atuação como “advogado do mato”, defendendo os camponeses no sempre conflagrado sul do Pará, seus mandatos como parlamentar até ser assassinado a mando de latifundiários.

Marcados para morrer

Por conta de sua atuação em defesa dos posseiros e pequenos agricultores no Sul do Pará contra grileiros de terras e fazendeiros reacionários, Paulo entrou na famigerada lista dos marcados para morrer. Naquela época surgiu uma certa União Democrática Ruralista, a temida UDR, que declaradamente combatia os defensores da reforma agraria e ajudou a sabotar o Plano Cruzado de Sarney.

A UDR se mobilizava abertamente organizando sobretudo pecuaristas e promovendo leilões de gado para juntar dinheiro grosso e combater a reforma agrária e intimidar militantes, advogados e grupos políticos favoráveis à distribuição de terras e contra o latifúndio.

Era assim no Pará e era assim em Mato Grosso, especialmente numa cidade chamada Rondonópolis, no Sul do estado, onde desembarquei no dia 22 de maio de 1983 na rodoviária local para desenvolver um trabalho profissional por seis meses e acabei ficando oito anos. Logo cheguei me integrei aos movimentos sociais locais, entre os quais a organização de núcleos de trabalhadores rurais. Ali imediatamente comecei a organizar meu partido, ainda na clandestinidade. E a reação da UDR, articulada com a TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) foi implacável e as ameaças de morte surgiam escancaradamente.

Um homem destemido

O Paulo Fonteles era a inspiração minha e dos demais militantes, que também atuávamos nos movimentos comunitário e trabalhista. No início de 1986 viemos em uma caravana para uma reunião do partido aqui em Brasília. Nosso alojamento foi no antigo Mané Garrincha. Quando lá chegamos, avistamos por entre o conjunto das arquibancadas e o gramado um vulto se aproximando. Era lua cheia e a iluminação lunar dava um brilho nos fios de cabelo que deslizavam sobre parte da cabeça calva do Paulo, que chegou até nós, abriu um sorriso, deu boas vindas e trocamos algumas palavras.

Impressionou-me aquela tranquilidade, aquele aconchego de sua fala e gestos. Sabíamos que ele estava na lista dos marcados para morrer e esperávamos encontrar um Paulo Fonteles aturdido e, porque não dizer, , temeroso , como eu próprio estaria ante a iminência da morte. Pensei comigo enquanto procurava por meu alojamento: “Este cara é forte e corajoso. Eu queria ser como ele.”

A coragem do Paulo me foi inspiradora e emuladora naquele dia. E todo o perigo que ele corria surgiu-me antagônico. Temia pelo pior, mas ao mesmo tempo o vi naquele momento destemido, me passando a imagem de um super-herói e eu, em meus quase 25 anos (!), o tive como indestrutível. Até que, no ano seguinte, uma imagem que carrego nesses 31 anos me deslocou para a realidade: o Paulo alvejado, tombado, cabeça pendida, ensanguentado, naquele carro à beira de uma estrada no Pará.

Logo lembrei dos versos de Ferreira Gullar, em Dentro da Noite Veloz: “Ernesto Che Guevara, teu fim está perto, não basta está certo para não morrer de bala. Ernesto Che Guevara, não estejas iludido, a bala entra em teu corpo como em qualquer bandido”.

Uma solidão imensa

A morte do Paulo nos pegou naquele junho de 1987 e nos destroçou. Como é cruel o latifúndio! Onze anos depois, em 1998, senti na boca um gosto de fel e uma solidão imensa quando o cano de um rifle em minha cabeça me intimava a entregar o bloco de anotações e ao repórter-fotográfico Décio JB, os rolos de filmes fotográficos. Cobríamos, pelo jornal A Gazeta, uma ação da Delegacia Regional do Trabalho para tentar libertar mais de uma centena de trabalhadores escravizados numa fazenda de plantação de cana na região de Cangas, município de Poconé, cidade a 100 quilômetros de Cuiabá, capital mato-grossense. Na volta, numa estrada vicinal, fomos emboscados pelos pistoleiros da fazenda. Poconé é chamada de “Portal do Pantanal Mato-grossense” e se notabilizou também pelos garimpos de ouro e pelas vastas plantações de cana de açúcar. Era ali (e possivelmente ainda seja) a prática escancarada do trabalho escravo, pratica que Mato Grosso só perde para o Pará.

Lembrei-me do Paulo.

Ele ficou comigo e caminha comigo até hoje. O meu encontro com seus filhos, sobrinhos e netos, nesta quarta, foi um mergulho a este passado que é tão presente, como certificam todos os meus entrevistados (vejam os vídeos abaixo), especialmente o jornalista Ismael Machado, autor do livro, o Ronaldo, seu filho, e a Juliana, sua filha. A emoção me tomou na série de entrevistas que iniciou com seu neto Aruan e terminou com o outro neto Paulo Sérgio, com quem contivemos o choro ao final da gravação.

Paulinho, herdeiro da luta

Paulo Sérgio traz uma memória muito forte de seu tio Paulo Fonteles Filho. Ele relata uma convivência bonita e conscientizadora. Eu tive uma relação muito próxima com o Paulinho mas nunca o vi pessoalmente. Sempre trocávamos impressões via redes sociais e pelos canais de comunicação do partido. Sua morte precoce – como a do pai – me abalou profundamente. Por esta razão iniciei uma pesquisa sobre ele e seus pais.

A primeira entrevista que fiz foi com a médica Maria José Conceição, a Maninha, ex-deputada federal, que, ainda estudante na Universidade de Brasília (UnB), militou junto com Paulo Fonteles e Hecilda, aqui em Brasília. Maninha me relata sobre a prisão do casal de dirigentes da luta contra a ditadura e sobre as bárbaras torturas que a mãe de Paulo Fonteles Filho sofreu com ele na barriga com apenas três meses de gestação. Seu vídeo é publicado abaixo.

Confira as entrevistas:

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *