Greve dos caminhoneiros escancara graves problemas nacionais

Por Carlos Inácio Prates

A greve dos caminhoneiros é justa e deve ser apoiada por todos os brasileiros sensíveis a uma situação que vinha se tornando insustentáveis: os frequentes e quase diários aumentos nos preços dos combustíveis. As consequências todos sabemos: encarecimento de toda a economia. No caso dos caminhoneiros, o diesel caro contribui para encarecer os fretes, reduzindo as demandas por transportes das cargas, somando-se aos já crônicos problemas de infraestrutura existentes, tais como uma malha viária precária.

Em relação à população em geral, além do encarecimento dos fretes, que encarecem e reduzem a demandas por produtos de todas as espécies, o aumento da gasolina pesa no orçamento doméstico, dificulta os deslocamentos mais rápidos, especialmente em áreas urbanas em que o transporte coletivo é precário e desconfortável. Portanto, a greve dos caminhoneiros tornou-se um movimento que rapidamente angariou a simpatia da população e a adesão de outros transportadores como taxistas, mototaxistas e operadores de transporte individual via aplicativos.

Contudo, o movimento paredista dos caminhoneiros faz escancarar alguns graves problemas que o Brasil vive atualmente e ao longo de sua história. No momento atual estamos vendo uma gestão da Petrobras que não tem a mínima preocupação com a soberania nacional e os direitos do povo brasileiro. A diretoria atual da nossa estatal petrolífera direciona toda a sua gestão para favorecer os acionistas internacionais e empresas petrolíferas de outros países que hoje dominam não apenas a exploração de boa parte de nosso petróleo quando da maioria das nossas refinarias.

Acrescente-se a isto tudo, uma política de preços exorbitantes para favorecer os acionistas alienígenas e o mercado internacional. Uma atitude insana da nova diretoria, que inclusive ignora qualquer autoridades do acionista majoritário da companhia, que é a União, ou seja, nós brasileiros. E nessa escalada toda abandonou de vez qualquer preocupação com o interesse nacional e com os direitos da população brasileira de usufruir dos benefícios de sermos hoje um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas com o segundo combustível mais caro do planeta.

O outro grande problema que nos revela a greve dos caminhoneiros é infraestrutural, a nossa dependência quase que completa do transporte rodoviário. Em todos os países desenvolvidos do mundo, a prioridade ao transporte ferroviário, interligado com os demais modais acontece há quase 150 anos. Ou seja, o Brasil está atrasado neste desenvolvimento há quase um século e meio. A matriz de transportes brasileira dá preferência para veículos automotivos, estimulando o uso de carros e caminhões e favorecendo a indústria automotiva.

Para sairmos deste atraso, precisamos de uma maior interligação do território nacional de forma mais rápida e mais barata e o transporte ferroviário cumpre esta função. Desenvolvimento da malha ferroviária brasileira, principalmente para trens de alta velocidade, é uma grande necessidade. Precisamos pensar nos modais, não desprezando totalmente as rodovias, mas possibilitando o uso delas integrado às ferroviais e também às hidrovias.

O Brasil tem um enorme potencial hídrico que precisa ser melhor aproveitado tanto no transporte de passageiros quanto, e especialmente, no de cargas. Hoje temos muitas hidrovias em funcionamento, mas é possível melhorar as já existentes e ampliar o número delas. Todos os grandes países, especialmente a Rússia, a China, os Estados Unidos e Índias, que são os que, ao lado do Brasil, possuem maior extensão territorial, priorizam o transporte ferroviário e aproveitam os potenciais de seu recursos hídricos para promoverem um transporte barato e eficiente, especialmente o de cargas, mas também de passageiros.

É preciso um esforço nacional para recuperar e ampliar a nossa malha ferroviária e integrá-la aos outros modais, não desprezando, logicamente, a importância da nossa malha viária e o trabalho abnegado de nossos transportadores, os caminhoneiros, que são hoje grandes heróis da vida nacional, muitas vezes cantados em verso e prosa, elevados a personagens de série de TV e de cinema, mas que ganham valor somente nesses momentos que percebemos o quanto eles são imprescindíveis na vida de cada um de nós.

* Carlos Inácio Prates é advogado da União, psicólogo, professor universitário e pré-candidato a deputado federal pela Rede Sustentabilidade.

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