‘Sou pré-candidato a deputado federal para a luta popular’

O advogado Carlos Naves, pré-candidato do PV à Câmara Federal, repudia a tradição de parlamentares mato-grossenses de alinhamento com as forças retrógradas que dominam o Congresso Nacional

Por João Negrão

Forjado nas lutas do movimento estudantil, como servidor público e na carreira de advogado progressista, Carlos Naves se lançou pré-candidato a deputado federal pelo Partido Verde (PV), tendo como base a cidade natal, Rondonópolis, no Sul de Mato Grosso, berço dos produtores de soja no estado. A cidade sempre reuniu forças antagônicas, com a esquerda e a direita se confrontando tradicionalmente. É neste ambiente que Carlos Naves construiu sua trajetória política e se credenciou para pleitear uma cadeira na Câmara Federal. Nesta entrevista, procuramos trazer ao leitor o posicionamento dele sobre os temas variados e candentes da política nacional e das demandas e problemas do país. Confira abaixo.

Quero ser o porta-voz dos segmentos de todos os setores produtivos. Serei também um enérgico defensor dos municípios, apoiando todas as iniciativas que defendam os interesses das cidades e dos cidadãos.

 

Quem é Carlos Naves?

Sou advogado e formado também em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), nasci em Rondonópolis há 46 anos, filho de Sebastiana Rezende e Cloves Naves de Rezende, pequeno produtor rural. Minha vida profissional foi sempre pautada pela ética e no compromisso com o resultado. Sou casado com Sirlene, assistente social, e pai da Carla e do Cauê.

Fale sobre a sua militância política.

Iniciei minha militância política no movimento estudantil secundarista, enquanto estudante na Escola EEMOP e Escola Técnica de São Vicente, onde me formei técnico agrícola, e universitário, sendo duas vezes presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMT. No serviço público, fui professor efetivo municipal – quando apoiava as ações do sindicato dos servidores públicos do município de Rondonópolis. Fui chefe de Gabinete na Prefeitura de Rondonópolis, chefe da Agricultura de Rondonópolis, fiscal do INDEA, superintendente da SEFAZ, secretário-adjunto de Saúde, chefe de Gabinete na Assembléia Legislativa de Mato Grosso e assessor parlamentar no Senado Federal.

Por que você quer ser candidato a deputado federal?

Me preparei para este desafio e acredito em um estado melhor para todos, com mais inclusão social. Quero ser o representante de todos os mato-grossenses no Congresso Nacional, a voz dos trabalhadores, dos pequenos e médios produtores rurais, dos estudantes, das mulheres, dos idosos e das crianças. Penso que, num estado com três grandes ecossistemas – cerrado, Pantanal e floresta amazônica – devemos redobrar nossa atenção ao meio ambiente. A destruição do cerrado mato-grossense e brasileiro deve cessar. Devemos ter a preocupação com a sua preservação sem afetar a necessária produção de alimentos. Esta será uma de minhas lutas. O desenvolvimento sustentável é perfeitamente possível. Defenderei ainda os micro, pequenos e médios empresários e empreendendores individuais. Quero ser o porta-voz de todos os segmentos produtivos. Serei também um enérgico defensor dos municípios, apoiando todas as iniciativas que defendam os interesses das cidades e dos cidadãos.

Quais são as suas propostas para a Câmara Federal?

Lutar por mais investimento nos serviços públicos como Educação, Saúde e na rede de proteção social. Lutar pela modernização da Lei Kandir para que tenha recurso que possa fomentar as indústrias e gerar emprego e renda nos Estados que produzem o agronegócio. Combater a desigualdade social e buscar políticas que visem melhorar o bem-estar social de todos Brasileiros. Representar o povo que não tem representação no Congresso Nacional e defender os direitos individuais e coletivos do trabalhador, para que não perca direitos fundamentais, como ocorreu na reforma trabalhista e na terceirização. E combater a reforma da Previdência, dentre outras que ameaçam os direitos do trabalhador e o bem-estar social.

É necessário que o Judiciário faça justiça e dê condições de igualdade para todos os candidatos disputarem as eleições.

O que precisa ser mudado na Câmara Federal?

Acabar com a corrupção disfarçada de governabilidade, e valorização de projetos que reduzam a desigualdade social e que melhorem a distribuição de renda, e ter coragem de taxar as grandes fortunas.

Como você observa o uso do plenário do Congresso Nacional por políticos com único objetivo de atacar adversários e disseminar o ódio entre as classes sociais do povo brasileiro, sempre com discursos rasos em busca do aplauso fácil dos setores mais conservado do eleitor?

O custo do Parlamento hoje é muito alto para que seus membros se percam com temas que não coloquem em destaque a melhoria do nosso povo, o desenvolvimento e a soberania nacional. As pautas do Congresso Nacional estão muito acima da postura que alguns senadores e deputados insistem em adotar, com discursos rasos e de aplauso fácil. Muitos também estão preocupados em disseminar o ódio entre os brasileiros, quando o papel de um parlamentar é justamente o de unificar a Nação, promovendo o diálogo entre todos os segmentos sociais e políticos.

Como deputado federal, você pretende participar de algumas das bancadas retrógradas com a dos BBBs, da bala, dá bíblia, do boi e da bola?

Serei da bancada popular. Eu penso que um parlamentar não pode se alinhar a grupos elitistas que defendem seus interesses particulares, em detrimento ao interesse geral do povo. Portanto, eu, com minha história pessoal e formação humanista, quero ser o defensor do povo.

O que precisa ser mudado em Mato Grosso?

Mato Grosso merece mais! Chega das velhas práticas políticas. Precisamos renovar, mudar, avançar rumo a um futuro com serviços públicos eficientes, que realmente atendam as necessidades da nossa população. Precisamos de um governo que tenha coragem de discutir com o seguimento produtivo, com o olhar social, para investir melhor os recursos dos tributos nas políticas públicas desenvolvimento e reduzir as desigualdades sociais, o governo tem que ser o equilíbrio dessa relação.

O que deve ser feito para mudar o Brasil retomar a democracia?

Somente com eleições diretas e democráticas. Não há outro caminho para que vivamos num Brasil de paz, sem ódio, se não continuarmos perseguindo o processo democrático. Sem ele é a barbárie.

Como você vê o fato de o candidato à Presidência da República que lidera as pesquisas de intenções de voto com ampla maioria estar preso?

Frusta o processo democrático. Todos os candidatos colocados, sobretudo, aqueles que estão com bom posicionamento nas pesquisas de intensões de votos, precisam concorrer, sob o risco de frustrar o desejo dos eleitores. Por esta razão é necessário que o Judiciário faça justiça e dê condições de igualdade para todos os candidatos disputarem as eleições.

Sou a favor da reforma agrária por acreditar que ela contribui nesse processo de redução de desigualdade social, porém tem que ampliar e ter mais investimentos para fixar o homem no campo.

Como advogado, qual a sua análise das investidas do Judiciário que têm ameaçado o estado democrático de direito no Brasil?

A Judicialização é crime contra a nossa democracia! Penso que as garantias individuais, sobretudo as previstas na nossa Constituição federal, em seu artigo quinto, devam ser respeitadas incondicionalmente. Qualquer ameaça a esses preceitos, especialmente a presunção da inocência, é por si só uma ameaça à democracia e a todos os cidadãos. Qualquer indivíduo tem o direito a um julgamento justo e imparcial, respeitando todos os ritos da Justiça. Ninguém pode ser condenado e preso antecipadamente sem que tenha esgotado todos os graus de recursos.

Como você votaria na reforma da Previdência, caso no próximo exercício parlamentar seja colado em votação?

Sou contra, pois já houve mudanças significativas que irão impactar positivamente no orçamento da Previdência, sobretudo, porque o Fundo da Seguridade Social, que engloba a política de previdência, é superavitário. Além disso, é necessário receber primeiro as dívidas de grandes empresas, de grandes bancos, que devem bilhões à Previdência. Se realmente for necessário fazer algum corte, que sejam nas pensões e aposentadorias de muitos privilegiados das Forças Armadas, do Judiciário, Ministério Público e do Legislativo, e seus parentes, que recebem valores milionárias.

Segundo pesquisas de opinião pública, a grande maioria do povo brasileiro não se sente representada pelos nossos parlamentares. Diante dessa desconfiança, caso seja eleito, como seria seu trabalho para representar melhor o eleitor?

Hoje o Congresso Nacional é tomado pelos lobistas de grande corporações, que atentam contra a soberania nacional e os interesses dos trabalhadores, pressionando os parlamentares. Por isto eu penso que o debate parlamentar deve ser trazido para o povo, fazer o cidadão ser o dono de fato do mandato, envolvendo a população nas discussões do Congresso que impactam na sua vida, pois é dele o mandato. O político é só o seu representante: instrumento no parlamento.

Qual a sua posição sobre reforma politica? Concorda com a redução de número de parlamentares? O que acha do financiamento público de campanha?

Não é o número de parlamentares que onera o custo do Legislativo. Não concordo com a redução do número de parlamentares, pois acho que fragiliza a representação popular e facilita a compra da governabilidade pelos governos corruptos, assim fragiliza o debate. O financiamento público de campanha é importante, mas, a meu ver, não inibe o famigerado caixa dois e acaba favorecendo aqueles que podem financiar individualmente suas próprias campanhas e angariar poderosos apoiadores individuais. Não basta apenas coibir o financiamento de empresas. Por outro lado, o emprego do dinheiro do fundo partidário como está previsto tem fortalecido as legendas de aluguel.

Qual a posição sua sobre a reforma agrária e regularização fundiária?

Sou a favor da reforma agrária por acreditar que ela contribui nesse processo de redução de desigualdade social, porém tem que ampliar e ter mais investimentos para fixar o homem no campo. E a regularização é imprescindível para dar independência ao assentado e para ele ter condições de acessar as linhas de crédito rural.

Qual a sua posição sobre a reforma trabalhista?

Sou contra essa reforma trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional por acreditar que o trabalhador ficou fora do debate e perdeu muitos direitos sem voz e votos em sua defesa.

Um dos pontos da reforma trabalhista foi acabar com o imposto sindical, que está colocando em risco a existência dos sindicatos. Como você se posiciona em relação a esta questão?

Sou contrário ao fim do imposto sindical, pois entendo que enfraquecerá o movimento sindical, considerando que o mesmo tem nessa verba o financiamento de suas atividades sindicais em prol da classe trabalhadora. É mais uma medida que afronta as conquistas sociais, resultantes de muitas lutas.

O que pensa sobre a Lei Kandir?

Que precisa sofrer mudanças e para que haja o fomento das indústrias no Brasil, modernizando essa tributação e gerando renda e emprego nos Estados produtores.

Qual a reforma tributária que necessitamos?

Modernizar a lei Kandir, por exemplo. Temos ainda que unificar os impostos, fiscalizar melhor as isenções fiscais. Como já me posicionei antes, temos que também taxar as grandes fortunas.

Fale sobre o que entende como deva ser o pacto federativo?

Priorizando um aporte maior aos municípios, onde produz a riqueza e onde arca com despesas e investimentos nas políticas públicas para o povo.

É preciso fortalecer as relações entre estado forte e iniciativa privada forte, todos sempre pensando numa Brasil próspero.

Como você se posiciona em relação aos programas de inclusão social?

Concordo com esses programas, por acreditar que contribuem para o equilíbrio social e distribuição de renda, e assim reduz o conflito social e a violência, ajuda a colocar as pessoas num estado de bem-estar social, equilibrando as relações sociais.

Qual a sua posição sobre cotas raciais e outras políticas afirmativas?

Sou favorável às cotas, pois entendo que é uma forma do Brasil compensar a dívida social que tem com as minorias étnicas e raciais, democratizando o acesso à educação. Porém, a longo prazo, o estado tem que investir na qualidade do ensino público. As experiências desta política têm demonstrado bons resultados.

Como você se posiciona em relação às privatizações, estado mínimo e a austeridade econômica?

Sou a favor o Estado ser o equilíbrio das relações sociais e econômicas. O Estado indultor do desenvolvimento é importante. Todos os países desenvolvidos tiveram e ainda têm um estado forte. O estado mínimo é discurso de quem quer ver o Brasil atrasado economica e socialmente. Isto não quer dizer que a iniciativa privada não tem sua importância. Tem sim! Mas é preciso fortalecer as relações entre estado forte e iniciativa privada forte, todos sempre pensando num Brasil próspero.

Qual a sua posição sobre a Operação Lava Jato? Há de fato o combate à corrupção ou estão lavando apenas um lado?

Sou a favor, porém está perdendo o foco pela sua parcialidade em proteger apenas um lado.

A propósito, você acha que está sendo eficaz o combate à corrupção no Brasil?

No geral, não, pois existe apenas iniciativas contra os erros da esquerda e seus aliados.

Você defende a educação pública?

Sim. Educação pública, gratuita e de qualidade.

Precisamos de meios de comunicação diversificados e não de monopólios de poucas famílias dominando a mídia brasileira. Isto inibe o contraditório, a regionalização da difusão cultural, social e política.

Qual seu posicionamento sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável?

O meio ambiente pode ser utilizado como proposta de sustentabilidade, pois pode se extrair proveito econômico, social e cultural mantendo toda integridade ambiental, tendo em vista que o principal elemento fim é o próprio homem.

Você é a favor da redução da maioridade penal?

Sou contra, por que já existem medidas socioeducativas, de caráter ressocializante, já preconizadas no ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) e que não estão sendo efetivadas. É necessário efetivá-las antes de se pensar qualquer coisa a respeito de redução da maioridade penal.

E sobre o aborto? É totalmente contra, apoia com restrições (apenas em casos de estupro, por exemplo) ou defende a descriminalização?

Sou contra o aborto. Porém, em caso extremos, mas muito extremos mesmo, como em caso de estrupo, de morte encefálica do bebê ou por risco de morte da mãe, considero que possa ser descriminalizado.

Pena de morte. Você é a favor ou contra?

Sou contra, por acreditar que violência só atrai violência, e seria mais uma oportunidade de penalização do pobre. E será mais uma medida de injustiça social.

Em relação à liberação do comércio de armas e munições, qual a sua posição?

Sou a favor, com a devida habilitação técnica e psicológica. O aparelho estatal de segurança não está totalmente presente na proteção da vida da população e chega um momento que o cidadão tem que se defender por conta própria. Aliás, ele tem o direito de se defender.

É a favor da liberação das drogas?

Da sua descriminalização sou.

Como o Brasil deve se proceder nas relações exteriores? Manter uma posição multilateral, de auto-determinação dos povos ou de alinhamento total com a política externa norte-americana?

Temos que ser nacionalistas, independentes. Não devemos seguir orientações de nenhum outro país em termos de alinhamento, que na verdade é uma submissão à geopolítica dos poderosos.

Qual a sua opinião sobre a reforma e democratização dos meios de comunicação e o controle externo do conteúdo das programações?

Sou a favor da democratização da comunicação. Precisamos de meios de comunicação diversificados e não de monopólios de poucas famílias dominando a mídia brasileira. Isto inibe o contraditório, a regionalização da difusão cultural, social e política. Além do mais, muitos veículos de comunicação são usando para impor posições políticas e construir narrativas de interesses de poderoso grupos econômicos e políticos.

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