Casa Manga Com Leite abre as portas para candidaturas populares

E a quem interessar, reporto também as minhas razões para deixar o PC do B, após quase 40 anos de militância

Por João Negrão

A Casa Manga Com Leite está aberta, a partir de hoje, às minhas candidaturas populares. Abro este espaço cultural, político e social para as candidaturas dos meus amigos Santa Alves, candidata a deputada distrital; Manoel Filho, candidato a deputado federal; e Chico Sant’Anna, candidato a senador. Aqui será o comitê da Vila Planalto das três candidaturas com as quais me afino política e ideologicamente e nomes que são de meu convívio político, pessoal e profissional.

A Casa Manga Com Leite também continuará sendo um Comitê Lula Livre e abraçando sua candidatura. Caso Lula não consiga se viabilizar como candidato a presidente da República, meu candidato será Guilherme Boulos. Como o Chico, Boulos é do PSOL. Santa e Manoel são do PC do B.

A minha candidata ao governo do Distrito Federal será Fátima Sousa. Mas não abrirei minha casa para seu comitê para respeitar as opções do Manoel e da Santa. A esta altura quem está me lendo deve estar pensando que meu destino depois da desfiliação do PC do B será o PSOL. Nada disso. Tenho severas reservas ao partido do colega jornalista Chico Sant’Anna.

Ademais, não me filiarei a partido nenhum de agora em diante. Minha militância política continua e colocarei todas as minhas energias e minha atividade profissional para forjar uma verdadeira aliança popular. Sem grandes (ou talvez nenhuma) pretensões, quero ser um aglutinador de pessoas, movimentos, coletivos e ideias que querem a transformação de fato do Brasil em um país sem iniquidades, um país socialista.

Sou Lula porque ele me representa como classe. Tudo que Lula sofreu, sofre e ainda sofrerá é porque ele tem e mantém sua consciência de classe. Ao contrário, se tivesse capitulado às elites brasileiras não estaria sofrendo. Sofreu horrores nas mãos do consórcio golpista. Perdeu sua companheira. Vê seus filhos numa agonia sem fim. Está preso injustamente. E mesmo assim não se dobra.

Lula merece e merecerá minha solidariedade sempre. Mas se ele for inviabilizado, não votarei no seu indicado.

Classe e representatividade

Por que Boulos e não Fernando Haddad, caso este seja o substituto de Lula?

Nada contra o ex-prefeito paulistano e o PT. A questão para mim agora, no primeiro turno, nestes tempos de acirramento da luta política e ideológica e da encruzilhada que vivemos – o golpe avança e só retrocederá se radicalizarmos na luta –, é marcar minha posição essencialmente ideológica, de classe e de representatividade.

Me identifico com o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) dirigido por Boulos. Penso que a luta dos sem-teto merecerá meu apoio caso Lula seja impedido.

Eu nasci um sem-teto, num barraco de tábua e telhado de zinco à beira do Lago Paranoá, num acampamento da empresa que meu pai, José Orozimbo Negrão da Silva, trabalhou como operário na construção de Brasília.

Eu iniciei minha militância política dentro da Igreja Católica, como líder de grupo de jovens e, com meu então grupo de teatro, apoiando a luta dos sem-teto em Goiânia. Eram os idos de 1976.

No ano seguinte estava engajado na luta pela anistia. Dois anos depois ingressei o PC do B, ainda como estudante secundarista atuando no grêmio da Escola Técnica Federal de Goiás e na FREMES (Frente de Reorganização do Movimento Estudantil Secundarista).

Logo o PC do B me designou para atuar nas lutas comunitárias em bairros pobres da zona Leste de Goiânia, apoiando a organização dos moradores e as ocupações de sem-teto. Outra frente de luta foi o Movimento Contra a Carestia. Portanto, minha origem de vida e de luta política tem este atavismo.

Eu me identifico também com a Sônia Guajajara. Eu sou filho de uma descendente dos índios cariri, do sertão da Bahia. Minha mãe foi uma camponesa e depois uma sem-terra, quando num conflito agrário meu avô e minha avó foram obrigados a sair de Mundo Novo em lombo de jumentos e cavalos com 26 filhos (21 deles adotivos) em busca de uma nova vida na construção de Brasília.

Foi quando o operário José Negrão encontrou a camponesa Clarice Laura, lavadeira e garçonete nos acampamentos de Brasília em construção.

Eu sou fruto dessa “aliança” operário-camponesa. Eu sou fruto dessa miscigenação; eu sou essa mistura brasileira de negro e índio. E aqueles que estão por todo Brasil na luta por um lugar para viver são em maioria negros ou miscigenados com índios como eu.

Minha saída do PC do B

Ano que vem completaria 40 anos de militância do PC do B. Quando protocolei meu pedido de desfiliação na manhã desta terça-feira e compartilhei a informação com amigos e camaradas, houve um coro quase uníssono: que loucura é esta? Ninguém acreditou. Minhas filhas, que tantas vezes foram preteridas devido à luta política, imediatamente indagaram: por quê, pai?

Respondi a todos peremptoriamente: o PC do B deixou de ser um partido revolucionário, marxista-leninista e proletário. Virou uma agremiação pequeno-burguesa, comandada por uma aristocracia oportunista, em essência.

Não tenho mais paciência para empreender o debate. Entre os meus antigos camaradas tem muita gente séria e honesta. Recebi mensagens e telefonemas inúmeros de camaradas solidarizando, outros me pedindo reconsideração e alguns dizendo eu sou louco. Sei que não sou.

Aos que me entendem, só agradeço. Aos que imaginam que estou capitulando, que trazem aquele surrado discurso de que “uns descem numa estação, mas a maioria continua no trem da revolução”, só lhes trago duas notícias, uma boa e outra ruim.

A boa: não faço mais questão de tê-los como camaradas e, portanto, vocês estão livres de mim.

A ruim: o trem que vocês imaginam ser o trem da revolução não é mais o da revolução socialista, leninista. Ele é o trem do oportunismo, do adesismo desavergonhado, da traição ao proletariado e ao marxismo-leninismo e está descarrilhado e vai encontrar o desastre logo ali adiante.

Até a próxima estação.

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