‘Capoeira não vota em capitão do mato’, uma carta do mestre Danadinho ao capoeirista Álisson Lopes

Alisson, prezado camarada:

Recentemente conversei, sobre o assassinato de mestre Moa com dois velhos camaradas: Angoleiro, que é baiano e candango, e Gato, do Senzala (RJ).

Primeiramente estávamos de acordo que # EleNão! Segundamente, que o “Coiso” não tem o menor sentimento em relação ao próximo, análogo ao Temer e ao Cunha somados. Deus nos livre!

A respeito dessa conversa, em louvação ao mestre Moa pelo que lhe ocorreu e a despeito do clima odioso que o “cujo” irradia, ameçando com uma “auto-ditadura” (Gal. Mourão), precisamos dizer aos nossos camaradas que
capoeiras não votam em CAPITÃO DO MATO!

Notadamente os iniciados no Grupo de Capoeira Senzala, cuja afirmação se deu em plena ditadura de 1964; época em que a arte mestiça era lembrada como símbolo de resistência pelas lutas contra a escravidão, extensiva às injustiças congêneres. Isto se tornou lembrança destacada nas composições musicais de Baden & Vinicius, como nos Afrosambas, época em que a Bossa Nova de João Gilberto conquistava o mundo. Nossa arte mestiça apareceu com o mesmo simbolismo, também no Cinema Novo de Glauber Rocha, período afirmativo da Nova Capital, pelo urbanismo de Lucio Costa e pela arquitetura de Oscar Niemeyer. Foi o tempo em que a poesia driblava a censura, com arte e inspiração, herdadas do saber popular e da erudição moderna relevando a brasilidade identitária.

A Capoeira passou a ser jogada pela classe média, ensinada e cantada como cultura de resistência, em analogia contra as formas de opressão, privações de liberdade, torturas e desaparecimentos.

O ano de 1968 foi o do Ato Inconstitucional nº 5, o duríssimo A.I. nº 5, década em que o Senzala tornou-se conhecido pelas vitórias consecutivas nos torneios “Berimbau de Ouro”. Nossa Roda no Cosme Velho (RJ), no sopé do Corcovado, lotava o lado de fora de um galpão, dependência de um casarão a ser demolido. Apareceram por lá Betânia, Caetano, Gil, Gal e outros; embora, os que importavam para nós eram os mestres, como Jair Moura e Camisa Roxa entre os baianos; ou, um dos dois derradeiros lutadores/mestres da Capoeira de Sinhô, Bira, aluno de Neider que, pela primeira vez “jogava” a “capoeira baiana”; ou, muito esclarecedor, o militar pernambucano, Alcides,
mestre que descreveu a tradição da sua região de engenhos e plantações, onde a Arte da Mandinga, era lutada ao ritmo das palmas e dos sovacos pressionados com as mãos! Gato, ele mesmo pernambucano, lembra-se desta
ocasião.

O “galpão” de telhas de barro, com área aproximada de 4 x 7 m, porta estreita e aberturas sem janelas. Dentro, cabia só uma parte dos amigos, respeitando a “roda” de 15 capoeiras. Fora, gente variada do bairro, turistas, pedintes, hippies, curiosos, pipoqueiro, e uns mais velhos, com ares de beatniks em protesto político; porque a Capoeira era admirada com o seu sentido insurgente (subversivo, dizia-se à época). Havia entre nós quem intuísse na atmosfera da Roda a consciência de insurgência engajada, diante do quê ocorria em países próximos, e no Brasil. Como agora.

O significado, para aqueles, e para nós, era o da resistência às formas de opressão: as do colonialismo, da escravidão, da fome e da privação de liberdade. Certa noite, voltando de uma exibição alegre, mestre Paulo Flores ao
som de um só berimbau, discursou contra a situação do país, sobre o pedestal da escada da Igreja Matriz N.S. da Glória, ponto focal do Largo do Machado, no Flamengo.

Capoeiras não aceitavam CAPITÃO DO MATO.

Como falávamos a esse respeito, peço aos camaradas “conectados”, que busquem amigos nossos, mestres e extensivamente seus camaradas, sobretudo do Senzala, mas também velhos amigos de outras rodas e grupos.

Respeitando os que pensam diferentemente.

Mas, notadamente aos que se condoem dos mais pobres, dos minimamente assalariados, das mulheres, dos LGBTQIs, dos negros, mestiços, jovens, índios e nordestinos.

Sem falar que além da 2ª maior população presidiária do mundo, nos perturba também o “entreguismo” das riquezas e empresas públicas nacionais, o meio ambiente sob a mira da insustentabilidade, além dos retrocessos pelo abandono das políticas públicas de combate à fome, pobreza e desigualdades sociais, voltando a envergonhar o país diante do mundo.

Além do desmanche do SUS abrindo aos planos de saúde privados, a busca de privatização do ensino público em todos os níveis.

Por isso e muito mais, há que se entender: Capoeira não vota em CAPITÂO DO MATO !!!

Na indecisão vote pelos pobres, como diz Pedro Casaldáliga.

Abraço “de quebrar costela”, como diz mano Gil Velho.

Muitas Graças, Muito Axé, e viva a nosso País e ao povo brasileiro.

Cláudio Danadinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *