Ele pode

Por Álisson Lopes

É a força do exemplo, sim, a “Efetiva liderança é a liderança do exemplo”, estava nas paredes do 32° GAC em 1995, incrível como algumas experiências marcam igual cicatrizes, marcam mais do que tatuagens. Ele não foi um bom soldado, nunca compreendeu a didática do grito e da ameaça, funcionou, marchou, até atirou, mas num certo momento empacou e nada fazia mais sentido, principalmente gritos e ameaças. Mais ainda, foi contemplado no final com recomendações do comandante, como bom soldado, não para ele.

Lembra a voz de um oficial, um barrigudo, que era bom de grito, parecia sempre nervoso, falou para tropa que quem fosse um fracasso lá seria um civil fracassado. Talvez de todas as correrias e hinos, esse bonachão foi o que mais o empurrou para frente, não como incentivo, mas como provocação.

Ele gosta de praticar artes marciais, ao longo da vida treinou taekwondo, gosta de chutar, chutar alto, por conta da sua ancestralidade latente jogou capoeira, a musicalidade o levou longe, foi batizado ao som do berimbau, também praticou karatê de contato e o jiu jitsu brasileiro. Conheceu muita gente, bons lutadores, e bons professores. Pode desenvolver uma consciência corporal e um senso moral peculiar corrente nestes meios.

A disciplina destas artes o deixaram soldado de novo, mas desta vez pelo seu querer, sem grito e ameaça, mas efetividade, não se tornou um hábil lutador, porém não é bobo.

Cada arte é um universo, e entre os praticantes brota uma irmandade fabulosa. Sonhar, planejar, construir, fazer… avançar. Apanhar, pesadelo, reação, retrocesso, conservadorismo. Veja, perceba, intua, onde errou, onde foi o equivoco, não são nas palavras, é na ação, é como defende, é como demonstra. Como um pássaro que aprende voar vendo seus pais, como se ensina à paz ? Não é falando, é vivendo.

Ele, aquele garoto, sim, aquele com cabelo mal cortado e assanhado, falador, magro e sonhador. Ele cresceu, sem ninguém botar muita fé nele, nem ele mesmo. Pois é, ele fez umas coisas legais, andou por lugares, escreveu coisas, viveu aventuras, não ficou rico, nem perto disso, mas quem vive com ele sabe que já é homem feito, com filhos feitos, e é feliz, simplesmente e deliciosamente feliz.

Tem um povo, um povo debochado e despeitado, que fala que ele é maloqueiro, encrenqueiro, cheio de tatuagens, que é macumbeiro, que não pensa igual a eles. Cara diferente, eita porra, diferença que incomoda os outros, a infelicidade dos outros. Já o chamaram até de comunista, vigi Maria, né não moço, comunista ele não é.

Aliás me disseram que ele é devoto de São Judas Tadeu, São Jorge, São Sebastião, Santa Ana, Santa Bárbara, São Bartolomeu, São Jerônimo e São Lázaro, mas também dizem, povo falador, que ele tem um patuá de Oxossi, que sua cabeça gira Ogun, Xangô, Iansã, Nanã, mas um tanto de caboclos e pretos velhos, ele quer ficar bem com todo mundo, parece, recebe de bom grado benção de padre e de pastor, também da Yá.

O menino cresceu, o moleque tá por aí, some e quando aparece faz diferença, um dia vou seguir assim, tipo ele.

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