Numa noite qualquer, numa praça

Por Álisson Lopes

É assim que começa essa história, nada especial, acredito que ele queria passar despercebido na vida, até a natureza lhe ajudou nisso, não era grande, aliás era pequeno para média brasileira, embora tivesse uma estrutura óssea robusta, sim, lembro-me bem, para quem olhava e reparava parecia um homem que iria crescer com seus ombros largos e rosto redondo, mas foi interrompido, não cresceu, devia ser o menor da turma, da rua, talvez da família.

Parecia não se importar com política ou com polêmicas, vivia sua vida, as vezes ali sentado num banco de uma praça com mato ao seu lado. Não se importava em fazer amizades, mas tinha companheiros que também não se importavam em fazer amizades e isso os uniam, eram parecidos, a praça um ponto de encontro. Alguns diziam que ali aquela praça era maldita e aprisionava a vontade dos homens, se um desavisado começasse a utilizar , principalmente nas noites sua alma estava condenada e proibida de viver o mundo.

O cotidiano da praça era uma verdadeira rede social primitiva restrita à oralidade, ali passavam homens e mulheres perdidos neste mundo, ela tinha sua contradição, era um ambiente familiar diuturnamente, geralmente, mas ao anoitecer se acendia fogueiras como se invocassem os perdidos da noite, passavam fantasmas, foragidos, buscavam-se drogas e também as consumiam.

A praça era um ponto de encontro, era um ponto de encontro de consumidores de drogas, de banidos, de sem dinheiro e foragidos, então o encontro improvável dos diferentes, sem ideologias, sem militâncias, já distantes da escola e da família, era assim uma mesa improvisada de madeira apoiada nos joelhos dos jogadores com bancos precários serviam para jogar dama e falar da façanha dos outros. Sim, nas praças tem os seus mitos, seus transgressores, os ditos ou malditos valentões que na moda do cangaço desafiavam as autoridades de baixa patente da atalaia ostensiva. Na maioria das noites era tapa na moleira que sofriam após respostas provocadoras. Tais circunstâncias serviam de história na hora do jogo de dama.

Muitos dos seus companheiros ele nunca soube os nomes verdadeiros, eram conhecidos por apelidos inusitados e em grande parte nada elegantes, eram ofensivos mesmo. Mas ali, neste universo paralelo e marginal, ele aprendeu a se defender das violências que tinham nas noites longas, aprendeu a se drogar e a brigar, lutava entorpecido e nem sempre para se defender agora era por diversão. Encontrou romances, não prosperavam, ao longo dos anos a indiferença era maior do que a dor, a ausência de perspectivas não era problema enquanto pudesse consumir tudo que o retirasse da sobriedade.

Em alguns momentos a praça parecia um lugar divertido, com alegria , até um futebol na madrugada acontecia, com o tempo a violência se tornou mais presente e fratricida, bastava um olhar para o outro, era a paranoia da noia, da merla, do crack. Uns dos seus companheiros sobreviveram, romperam a maldição e hoje não lembram ou não querem lembrar de histórias dignas de comparação à parte do Inferno na obra Divina Comédia de Dante Alighieri. Outros tantos são pessoas em situação de rua, outros presos e outros mortos, quase todos antes dos 30 anos.

E quanto ao protagonista desta crônica, não sei bem ao certo, fala-se demais nas ruas, nesta oralidade das praças, que ele continua na praça, somente a noite, todas as noites, mesmos nas mais sombrias e chuvosas, se você quiser pode encontrá-lo, talvez até conversar com ele, contudo por sua própria conta e risco.

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