Um outro mundo

Por Álisson Lopes

Existia um mundo, um mundo distante do nosso, com costumes e línguas diferentes. Um mundo desigual socialmente, aliás com brutais diferenças sociais, um mundo futurístico, com invenções maravilhosas, rumo à conquista do Universo. Porém, em sua profunda desigualdade não havia inventado uma máquina para repartir o pão, pois sim já tinha alimentos suficientes para todos, matematicamente viável há décadas. Contudo precisavam de uma máquina que sensibilizasse corações e mentes para solidariedade, era algo a ser construído.

Enquanto um brilhante cientista não inventava tal máquina, essa pobre civilização que não sabia repartir o pão e por conta disso tinha milhões de famintos, adotava em sua política um presidencialismo à parmegiana, presidencialismo de coalizão, sendo que emblematicamente adotava também o bipartidarismo e de um lado eram os Comportados da Pátria, do outro os Travessos Transnacionais. Eram dois partidos distintos tendo como intersecção o discurso de defesa daquele planeta e de seu povo.

Os Comportados da Pátria tinham um discurso feroz de purismo da espécie e não aceitavam a visita de alienígenas, todos adotavam longas cabeleiras e os machos da espécie, bigodes grandes e trançados. Os Travessos usavam grandes e coloridos cabelos moicanos, além de raspar as sobrancelhas e defendiam o casamento poliândrico. Estes partidos tinham muitas, muitas divergências, mas convergiam na necessidade de acabar com a fome, todavia há muito essa convergência havia sido empurrada para escanteio. Houve um tempo que uma liderança da base dos Comportados, que se destacava e tinha o nome de Mediação, acreditava numa cultura de paz e numa comunicação positiva. Entre os Travessos também forjara nos debates internos das tendências o líder Persuasão, um jovem, filho do dono do partido, franzino, de boa fala e pouca estatura.

Eram da mesma geração, gostavam de conversar, logo no primeiro encontro se atraíram, se enroscaram e se amaram despudoradamente, juntos, unidos, numa maior práxis de união de tendências, de quebra de correntes jamais vista, o brilhante cientista deveria analisar esse caso, um relacionamento entre lideranças da base de partidos divergentes. Como assim?

O pobre e brilhante cientista não conseguirá fazer a máquina de repartir o pão, então ela fez-se sozinha. Aquele perfume espalhou-se pelo planeta e a fome acabou-se.

Dizem os linguarudos que na prática as bases partidárias de ambos os partidos cometiam atrocidades em nome do estatuto partidário, mas os cientistas políticos deste planeta diverso do nosso afirmavam que lá, lá no congresso de lá, os líderes dos dois partidos, os graúdos, se amavam e se amavam em nome da maior convergência entre eles, o poder.

Mas ali na base o amor entre seres de partidos diferentes era determinantemente proibido, era condenado à morte quem ousasse transgredir essa regra. Na realidade, outra convergência era essa entre ambos os partidos, nada de amor interpartidário, todos os seres do planeta tinham obrigação de denunciar tal aberração. Se eventualmente tal ação fosse tomada entre os grandes donos do partido era uma estratégia aceita pela importante governabilidade, porém alguém da base jamais, nunca, nunquinha, poderiam se amar. Estava no estatuto bem explicado que somente odiar era permitido entre seres de partidos diferentes.

Porém, o amor visceral e indecente de Mediação e Persuasão era indestrutível, eles se amaram, inicialmente na clandestinidade, a despeito dos estatutos, dos partidos, dos seres do planeta, eles fizeram isso, se encontram e se entregaram ao suor e beijos molhados do amor de tal maneira que extrapolaram o segredo, o mundo, aquele mundo viu um amor jamais narrado e concebido, era uma subversão. Os donos dos dois partidos souberam desse ato de amor nada natural conforme previstos nos estatutos dos partidos. O amor entre os dois era tão grande que centenas de delatores fizeram denúncias nos partidos. A ordem do dia era exterminar esses terroristas. O dono dos Travessos, mesmo sendo o seu filho um dos acusados, não hesitou e acordou com a pena capital.

Então, num dia, eles receberam mensagens em seus comunicadores, mensagens marcando um encontro entre os dois. Eles foram, eles de fato não haviam enviados aquelas mensagens, mas viviam aquela saudade dos apaixonados e, portanto, não perdiam oportunidade de se encontrar. Foi então que em quarto se encontram e se entregaram a mais fugaz paixão. Agentes dos Travessos e Comportados trabalharam juntos nesta emboscada, verdadeira sinergia, colocaram bombas no quarto, as bombas foram efetivamente deflagradas e os amantes tiveram seus corpos partidos por seus partidos. Foi um estrondo louco, um cheiro de poeira tomou conta do ar, junto com uma leve fragrância de um perfume desconhecido.

Os meios de comunicação ilegais tomaram conhecimento do fato, narraram a história, desnudou a política parmegiana, começaram conflitos, convulsões sociais, os velhos políticos fugiram do planeta, era uma revolução. O pobre e brilhante cientista não conseguirá fazer a máquina de repartir o pão, então ela fez-se sozinha. Aquele perfume espalhou-se pelo planeta e a fome acabou-se.

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