O Novo

Por Álisson Lopes

Uma civilização avançada, em outro sistema solar, enviou seu melhor cosmonauta para desvendar os segredos do universo e principalmente encontrar outras formas de vida. Como essa civilização tinha outra perspectiva de tempo e espaço, além de sua espécie ser contemplada pela maestria biológica da evolução natural aperfeiçoada pela expertise de sua tecnologia conseguindo obter uma longevidade que beirava a eternidade.

Eras depois o nobre cruzado, o cosmonauta volta de sua busca para prestar ao seu soberano relatórios parciais, ele é recebido como herói, banquetes e cortejos lhe são oferecidos, logo uma audiência é marcada para encontrar com o “Representante”, era assim que chamavam o líder máximo do planeta, era uma única nação.

O cosmonauta depois de festas e bebedeiras, encontra-se com o Representante, para sua surpresa já era outro representante, o novo, com roupas de rei e chifres enormes, chifres que ganhavam a atenção pelo tamanho e brilho, brotavam da testa do neo-representante. Ele saudou o cosmonauta e não deu muita importância para ouvir o relatório do cosmonauta, preocupou-se em falar da importância da figura do cosmonauta para o mundo e que algumas coisas haviam mudado, algumas simbólicas como agora todo soberano quando no poder deveria transplantar os maiores chifres em sua cabeça, quanto mais chifrudo mais soberano.

O Novo não queria ser chamado mais de representante, modestamente, demonstrando sua simplicidade e humildade pediu ao aventureiro do espaço que o chamasse de Vossa Excelência Soberano o Novo. Tratamentos pessoais acertados, o Novo ignorou relatórios e protocolos e foi narrando dissertativamente as novas mudanças e conquistas da nação, não era mais um governo do povo, ele explicou pacientemente que o povo não sabia o que queria e a governabilidade exigia práxis, e neste sentido aboliu a diversidade pois lidar com várias línguas e costumes dava uma trabalheira danada, e a nova política era padronizar, de agora em diante , todos deveriam pensar igual, era o novíssimo ordenamento jurídico do mundo civilizado. E ele, o Novo, foi descrevendo empolgado sua convicção, e o melhor, o povo deveria pensar como o seu soberano porque assim pouparia o Novo de consultar as bases, muito pratico, eficiente e justo. O Novo disse em tom de ironia que somente o chifre era exclusividade do soberano, portanto somente ele poderia adornar sua importante testa com aqueles chifres majestosos, seus assessores mais próximos utilizam a maior honraria que eram as desejadas coleiras douradas .

O Novo, explicou que o melhor para o mundo não era ter um representante, mas sim um dono, assim recairia para o dedicado soberano o fardo de gerir o planeta e seus habitantes seguiriam suas vidas sem pertubação.

O Cosmonauta ouviu tudo atentamente e fez uma única pergunta ao Novo: “Vossa Excelência Soberano o Novo, todos aceitaram a nova política?” A resposta foi a seguinte: “Uma classe subversiva, conhecida como os Famintos, reagiu, fizeram protestos, escreveram manifestos, somente não fizeram greve de fome. Então, para pacificar, demos comida e coleiras douradas para algumas lideranças e pedimos que eles reunissem as lideranças mais intransigentes ao diálogo para chegarmos a um acordo. A grande reunião foi marcada para o mais importante símbolo da nossa nação, o famoso Galpão dos Ancestrais. Chegando lá, todas as lideranças com coleiras e sem coleira já estavam aptas ao debate. Então mandei bombardear e explodir tudo. Pronto, a vontade da civilização venceu os interesses corporativistas, desde então sou o soberano, o Novo, o incontestável. E de você, Cosmonauta, só quero que volte para sua missão no espaço. Você lá no infinito é um símbolo, aqui não é nada.”

O Cosmonauta voltou ao espaço, talvez procurando um verdadeiro novo…

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