O Dom

Por Álisson Lopes

Nasceu um menino, um menino esperado e desejado pelos seus pais; um menino protegido e amado, portanto visto e bem visto em seu país, sua pátria. Entretanto o menino, esse menino, dentro dos padrões e protocolos sociais tinha uma peculiaridade, talvez um dom, talvez uma maldição. Ele, o menino, de bochechas redondas e avolumadas, via, percebia, sentia cheiros de coisas e gentes que ninguém parecia ver ou sentir.

O menino, quando andava de dia na rua com seus pais ou no carro durante a noite com seus pais em seu país, olhava na rua e via vultos e pessoas enroladas em trapos. Pareciam pessoas, de todos os tamanhos, figuras andróginas; de tão magras, de tão sujas, com olhos grandes encravados em corpos famintos, seus olhares estampados em rostos tristes eram de uma fixação devoradora. Os trapos sujos, os corpos magros, os braços e mãos estendidos, esticados, pedindo sem sucesso uma ajuda, uma redenção ou rendição, todos vencidos sujeitos aquilo ou coisas piores do que aquilo.

O menino sentia-se atormentado, assombrado, tinha pesadelos. Nos passeios seus pais felizes lhe ofereciam algodão doce. Ele pensava, “como eles, meus pais, não veem”? Ele refletia, “como eles, todos do país não viam”? O menino arriscou algumas vezes falar com seus pais sobre o que enxergava em seu país, porém não foi correspondido. Ele foi crescendo, esquecendo, ignorando, suas visões. Cresceu forte, robusto, com palavras mil que brotavam em sua boca, foi fazendo provas, foi ganhando colocações em seu país e seus pais orgulhos.

Mas, e quanto ao dom? Ele não perdeu, adormecido um pouco, mas ao andar às ruas por alguns instantes podia ver e sentir a dor e os cheiros dos abandonados, dos desumanizados que por motivo vários não tiveram o mesmo destino do menino, hoje um homem.

O homem, já que deixou de ser menino, detinha agora uma frieza dos adultos. Entendera que o seu dom era uma dádiva também de todos. Todos podiam perceber também, porém, ao crescerem, as pessoas de seu país e até seus pais, foram desaprendendo a ver os seus iguais necessitados, crianças, mulheres, homens na rua, rasgando sacos e disputando com cães, insetos e urubus algo para comer.

O menino, em corpo de homem, constatou que todos podiam ver e sentir, contudo ao longo dos anos perderam a sensibilidade da compaixão e empatia. As pessoas de seu país naturalizaram a pobreza e seus sentidos ignoravam os esquecidos, os que sofreram infortúnios e sem abrigo sobrevivem em meio às ruas, viadutos e becos.

O bem-sucedido, cheio de suas vitórias e orgulhos, empapado com suas viagens ao exterior e aromas de perfumes exóticos de outros lugares, não sentem o cheiro dos desabrigados, dos desesperados e das pessoas em situação de rua.

Nascem novos meninos e meninas, todos os dias, umas terão o dom e irão apreender a esquecer. Outros meninos e meninas, menos afortunados, nasceram na disputa por espaços em camas de papelão e por comida, cobertos pelos trapos da invisibilidade da indiferença de seu país.

 

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