Ele era o Cão

Por Álisson Lopes

Pensando, um pouco nostálgico, no passado recente, das relações sem tantas tecnologias e também sem complicações. Anos atrás eu tinha um amigo, um cão. Um relacionamento sem melindres, sem ideologias, prático e rústico. Era um cão sem raça definida, um pouco desproporcional, pois tinha a cabeça de um cachorro grande enterrada no corpo de um cão de pequeno porte. Não sei se por conta disso ele nunca se deu conta do seu tamanho e sempre desafiou adversários maiores. Ele jamais admitiu coleira e saía sozinho em seus passeios diários. Às vezes seus passeios duravam uns três dias, voltava exausto e dormia quase três dias para se recuperar.

E pensar que em alguns países de orientação totalitária no passado já viram cães como um símbolo de ostentação e portanto proibido de se criar, e também outro exemplo de como um Estado metido a total quer entrar na mente e logo nos costumes. Os homens não poderiam ter barbas pois representariam o símbolo de outro adversário ideológico. Cada uma, não é?! Ora, voltando aos cães e sua domesticação, essa história faz parte da história também do desenvolvimento humano. Os cães caçadores por natureza ajudaram os seres humanos na busca diária por alimentos em tempos remotos, ajudavam na guarda, no pastoril e também como companhia. Pessoas em situação de rua têm cães como amigos e protetores contra pessoas que possam a vir querer seu mal, como jogar bexigas de urinas nas madrugadas ou até queimar vivo.

Em relação ao cão, ele se chamava Touché, fazia o inimaginável, corria atrás de gatos, nada de impressionante até aqui, mas ele subia nos telhados correndo e saltando para pegar os gatos. Isso, sim, me surpreende até hoje. Ele não era santo, pelo contrário era o cão. Certa vez avançou num cavalo na rua tomando de forma certeira um coice no focinho. Meio nocauteado retornou para casa onde foi curado com matruz com leite. Era um boêmio, não resistia aos encantos de uma fêmea e uma noitada, brigava com qualquer um e a qualquer hora. Corria atrás dos outros, se machucava, voltava das ruas com o fedor dos lugares que se metia. Foi errante, foi valente, e eu sempre soube que bicho assim não morre de morte morrida, somente de morte matada. Então foi assim previsivelmente, num desses dias foi-se para as aventuras e não voltou.

Gente e bicho às vezes se confundem: bicho tratado igual gente e gente tratada igual bicho. Ele nunca foi meu, foi do mundo, sem coleira ou dono, mas era corajoso, quando em casa fazia a guarda, caçava, assustava invasores. Nunca hesitou em tascar o dente numa canela desconhecida que entrasse em nosso quintal. É assim, a vida passa rápido. Ele viveu do jeito que queria e até o fim.

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