Aborígene

Por Álisson Lopes

Ele era um autóctone e sua vida se restringia a decisões diretas e transparentes, quase fisiológicas. Vivia em sua terra mãe buscando o necessário, sem desperdícios, sem hipocrisias. Por um fenômeno natural indesejado e imprevisto viu-se obrigado à desertar de suas terras, refugia-se rumo ao desconhecido. Ele, sem alternativas, saiu a caminhar, logo foi dominado por medo, dor e desesperança, sua caminhada o levava ao incerto , depois de quilômetros de agruras, ele, agora um refugiado, depara-se com um grande muro.

Seres fardados com rostos cobertos e olhos sombrios, ele sem escolha, com sede, fome, o cansaço o havia vencido, suas forças eram para ir e não voltar. Diante daquele muro cinzento, alto e com arame farpado, ele viu mais de perto outros homens, iguais a ele. Logo um sentimento de esperança tomou seu corpo, imaginou ser recebido como igual, mas mesmo que fosse recebido como um bicho acreditava ter água, comida e abrigo. O imenso muro parecia não ter fim em seu comprimento, ele queria matar sua sede, sombra e ser acolhido, ele estava ali porque a sua terra, sua mãe, farta e bela, tinha tido um desastre, uma morte súbita. Agora ele era um aborígene fora da sua terra, um faminto, um órfão.

Mesmo sendo avistado pelos sentinelas da muralha, os portões não se abriram, seus gestos e seus pedidos ignorados, não tinha força para voltar, não tinha para onde voltar, resolveu passar seus últimos dias ali. Ele olhava para os homens que estavam em cima do muro, acompanhava sua troca de guarda, eles eram atentos na vigília e silenciosos, os olhares sempre treinados a não demonstrarem misericórdia, nem um copo com água lhe ofereceram, ele beberia a própria urina se tivesse para tentar abrandar sua sede.

O refugiado, entendeu que ali ele não passava de intruso, como uma barata que entra numa casa tendo somente o desprezo, não tinha mais força para gritar ou se levantar, em seus delírios via-se escalando o muro e saltando para um campo cheio de flores, rios e com arvores frutíferas, sentia o sabor e o cheiro. Seus devaneios também manifestavam-se em forma de pesadelo, onde ele levantavam seu corpo deformado pela magreza e como um inseto tentava subir o muro e era alvejado por armas moderníssimas de alta efetividade em assassinar sendo seu corpo inerte estirado ao chão agreste sem vida. Nem isso para aliviar seu fim.

A morte chegou, é certo, que em seus últimos instantes ele parou de sentir fome e sede, um frio congelante tomou seu corpo, ele não sabia em que momento morreu, mas quando o frio passou e todo o sofrimento, ele, o refugiado encontrou abrigo e conforto.

Ele não atravessou o muro, talvez anos depois aqueles que o barraram também tivessem que sair de cima do muro e na condição de refugiados seriam barrados em outro muro, talvez maior, mas talvez não, quem sabe eles encontrassem outro aborígene, um autóctone disposto a oferecer água, comida e abrigo.

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