Escola sem partido, escola sem ideologia, escola sem escola

Por Reinaldo Cordova

Defender a neutralidade da escola é uma utopia, para alguns, para outros seria uma distopia. Nessa época em que se desenha a sociedade como perdida e catastrófica, a escola fundamentada em valores científicos deveria ser acolhida e protegida pela comunidade. Haja vista, que a Ciência trabalha sempre com a prerrogativa da refutação, portanto, a Escola é lugar, espaço, ambiente de debate, de disputas, de crises de interrogações, por fim, de rebeldias.

Defender que os conteúdos de Ciências humanas e sociais sejam tratadas como as Ciências naturais é um projeto antigo e ultrapassado. No século XIX se tentou, foi chamado de positivismo, teve grande impacto na literatura e na construção de teorias até charmosas, mas que se auto debilitavam e inclusive foram alvo de críticas de Machado de Assis no conto “A casa amarela”.

A ciência e o saber não são propriedade de uma pessoa ou de um grupo. John Locke não defenderia isso. A Escola, uma invenção do princípio da contemporaneidade não era um ambiente para todos e não era um espaço democrático, mas percebeu-se os benefícios de universalizá-la. Não foi uma decisão fundamentada na alteridade, mas no desejo de ampliar os ganhos materiais e imateriais. De todas formas, o coletivo ganhou.

Portanto, o que alguns defendem como valores sólidos, inclusive eternos, são em realidade fruto de uma construção política e social muito recente. A escola, como conhecemos não é uma herança direta da academia platônica. Por isso, há que estar atento para não se defender ideias e instituições, como se existissem desde sempre.

Defesa de valores ou defesa de alienação?

Um dos autores do projeto de Escola sem Partido alegou que um professor de sua filha fez uma crítica à um saber religioso, fato que teria fomentado o desejo de criar esse projeto. Frente a essa preocupação poderíamos questionar: será que a evangelização que a família transmite em casa estava sendo bem feita? Pois, se supostamente, a jovem ficou tentada a desconsiderar todo o ensinamento obtido em família, em detrimento da fala de um professor. Talvez a instituição chamada de “Célula base da sociedade” não conseguiu enraizar “seus” valores.

Tais argumentos, como esses de cunho cristãos, negam inclusive a própria história e base do cristianismo. Cristo foi acusado de desrespeitar as leis e ensinar seus discípulos de maneira heterogênea; Paulo de Tarso foi um dos importantes exemplos de mestres, que negou sua aprendizagem, para converter-se no principal evangelizador da Antiguidade. Santo Agostinho, um filósofo pagão, abandonou suas raízes científicas para incorporar-se de maneira ferrenha à visão cristã. Essas pessoas se converteram em um ambiente de confrontação, não de subserviência inerte e alienada.

Ensino e Educação

A família deve oferecer a seus membros subsídios para a formação de seu caráter, de seus valores; a escola fomentará esses princípios, porque assim está estabelecido inclusive na legislação brasileira. Se qualquer professor ultrapassar suas atribuições, existem regras em todas as esferas de poder para impedir que siga em seu erro. As legislações são orgânicas e precisam ser sempre aperfeiçoadas, porque precisam estar fundamentadas em valores morais. Portanto, todo educador precisa ser bem formado sobre suas atribuições, sobre os limites de sua ação. Entretanto, a falha de um ou de alguns, não justifica a desqualificação do coletivo.

A metáfora da laranja podre não funciona nesse caso, precisamente, porque escola é ambiente permeado pelo saber científico, é dizer, o saber dos professores é refutado a todo instante. O educador, não pode ser censurado por dizer algo plausível, fundamentado, simplesmente porque um grupo de legisladores pressionados por pais, querem que um tipo de ensino seja impartido.

As famílias são livres para transmitirem suas crenças e valores aos seus membros, a escola respeitando a diversidade ensinará os conteúdos e as metodologias necessárias para a formação de um cidadão crítico e um profissional qualificado.

De tal maneira existe um espaço de atuação da família, em que a escola não interferirá. Bem como existe um campo, em que a família deve reconhecer sua incapacidade e deixar que os profissionais atuem. Ainda que existam espaços para cada um, o diálogo e parceria entre ambas instituições é benéfico para todos, portanto, ao invés de gerar distensões, o melhor é promover a harmonia, para o bem do jovem em formação e da coletividade.

Cortina de fumaça

Defender a imposição de uma mordaça aos professores, não resolve o problema da educação dos jovens. Eles seguirão vendo TV, usando o smartphone e a Internet. Ou os pais e legisladores, que defendem o projeto pretendem criar uma lei proibindo esses recursos à juventude? Em um momento de proliferação de teorias conspiratórias em que supostamente comunistas ou islamitas, capitalistas ou ateus desejam destruir as bases da sociedade, precisamos de uma pausa para autorreflexão. Somos bombardeados por informações, que muitas vezes não são devidamente analisadas e digeridas.

Por exemplo, essa proposta de escola sem partido não é necessária, pois as atividades do educador são pautadas por regras morais, legais e pelas normativas escolares. Por tanto, os professores não podem obrigar os estudantes, em nenhum nível escolar, a aderirem a pensamentos e práticas relacionadas à moral, sexualidade ou crenças religiosas. O professor não está para doutrinar, mas está para provocar e motivar o estudante. Em um ambiente cordial e aberto.

Os resultados de sistemas de ensino abertos demonstram que os ganhos são mais efetivos, do que se fossem limitados, controlados, censurados. Aceitar passivamente uma ideia, baseada em uma ideologia de um grupo de partidos, de que a Escola deve ser neutra e imparcial não atendem às demandas coletivas, que exigem diálogo, reflexão e liberdade. A escola deve ser livre para pensar e para criar, bem como para ser refutada, assim se constrói o saber.

Inconclusões da Escola sem Partido

Uma ampla e difundida onda de ignorância avança na Era da Informação. Ainda que as pessoas tenham acesso a dados científicos, com uma facilidade nunca antes vista, terminam por se isolar e limitar a uma zona de conforto, onde suas opiniões e convicções são retroalimentados. Por isso, supostos filósofos são tratados como gênios, quando em realidade suas propostas são infundadas e especulativas.

A proposta da Escola sem Partido vai nessa onda, porque deslegitima a escola e fomentar ainda mais a desvalorização dos professores. Ao invés de se fomentar a melhoria dos padrões educacionais se busca fragilizá-lo ainda mais.

Devemos celebrar que essas propostas, momentaneamente, não foram aprovadas pelo Legislativo Federal. Projetos como esse servem para que percebamos a fragilidade de nosso sistema, e estejamos atentos, porque as construções de liberdade de pensamento, os avanços humanistas e o saber científico são resultados de uma atividade continua e perseverante. Um momento de despiste pode gerar consequências desastrosas para o fragilizado sistema de ensino brasileiro.

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