Com seu Batom d’Amor e Morte, Jorge Amâncio revive as noites de Brasília e seus amores na década de 80

O grande poeta negro de Brasília relança o seu segundo livro, no qual “sublima a lua e o universo das mulheres que o poeta acalantou”

Por João Negrão

Um dos maiores poetas brasileiros e aqui de Brasília relançará no próximo dia 21 (segunda-feira) o seu segundo livro: Batom d’Amor e Morte. Jorge Amâncio é um poeta militante. Me atrevo a compará-lo a Solano Trindade e outros grandes poetas negros e militantes deste país. Jorginho, para os íntimos, milita e emula. Sua militância não se restringe ao movimento negro. Ele é, em essência um homem feminista. Sua poesia é feminista e fêmea. Isto não impede que ele exponha, com muito respeito e sutileza, sua “fúria de macho”, como diria Gullar.

Batom d’Amor e Morte, descreve José Edson dos Santos em texto que reproduzo abaixo, “percorre o caminho intrincado e tortuoso das musas que aconteceram na vida do poeta. As paixões e os desenlaces amorosos muitas vezes no contraponto sentimental ‘indefeso pelas argumentações etílicas’, ao som de um blues ou de um bolero indolente pelos subterrâneos do Conic”.

A obra é o “romantismo do boêmio lupiciniano numa viagem aos bares, becos e submundo”, como o próprio Amâncio define a temática dos poemas de Batom de Amor e Morte, em texto que reproduzo mais abaixo. Em seguida o poeta seleciona um de seus textos, “Para um Brother Amigo para Wilsom Miranda (em memória)”, uma homenagem a um de seus mais frequentes parceiros de boemia.

O lançamento de Batom d’Amor e Morte será no Feitiço Mineiro, às 20h30, e está inserido no projeto da casa, o Música para Todos. O Feitiço Mineiro fica na 306 Norte, Bloco B.

Confira abaixo o belo texto de José Edson dos Santos:

Batom d’Amore Morte sublima a lua e o universo das mulheres que o poeta acalantou

Por José Edson dos Santos

A poesia pode ser encontrada em alguma coisa que desperte sentimento ou comova e encante as pessoas: em um quadro do Heitor dos Prazeres, em uma música do Luiz Melodia, em uma dança afro reggae, em uma xícara de café expresso quentinho, na natureza da costela cotidiana, em um olhar feminino fatal, ou em um entardecer no Lago Paranoá. A poesia está em qualquer lugar onde exista a pulsação e o contato das pessoas e das coisas encantadoras. A poesia de Jorge Amâncio resgata a luta e o compromisso de uma atitude afro-brasileira na literatura, que encontramos presentes no seu livro anterior e em suas intervenções: Negrojorgen.

Batom d’Amor e Morte percorre o caminho intrincado e tortuoso das musas que aconteceram na vida do poeta. As paixões e os desenlaces amorosos muitas vezes no contraponto sentimental “indefeso pelas argumentações etílicas”, ao som de um blues ou de um bolero indolente pelos subterrâneos do Conic. “Tudo foi indo tão depressa/ a bala de hortelã, o último beijo/ os óculos escuro,/ o último cânhamo”. Em outros lugares ou ambientes etílicos onde fetiches proliferam inusitados por entre batons e bocas de cumplicidade do voyeur que “queria roubar o perfume/ idiota de um barman/ que usava jaqueta preta”, mas a necessidade sonora do corpo busca o hedonismo subjacente quando “o músico toca trompete/ deixando a marca do batom/ na boquilha apertada”, para sentir a carência afetiva pela musa desconhecida “sem nome,/ ela prefere passear,/ oferecendo a calcinha preta”. A dualidade desesperada do amor e desamor no mergulho abissal define o desalento existencial da lembrança emotiva: “fechei a cara/ rasguei o travesseiro/ perdi seu cheiro/ tranquei-me na solidão/ rasguei o poema/ sem rima ou pena”. Amorteamo, amorteamo…

O mito feminino da mancha de batom vermelho marca a noite de boemia e transcende o cálice de vinho onde “asas/ ensolaradas/ refletem/ nas janelas/ as cores/ de um arco-íris”. Assim, como no verso que deflagra, provoca e irrompe, Jorge Amâncio registra e enaltece a luta e a contradição do coração do poeta com suas paixões avassaladoras pelos caminhos sutis da vida. Perpassando pelos poemas dos amores e desenlaces sentimentais e por outrora noite etílica do poeta, relembramos que em Soneto de Orfeu, Vinicius de Morais ensina que “são demais os perigos dessa vida/ para quem tem paixão, principalmente”. A marca de Batom d’Amor e Morte sublima a lua e o universo das mulheres que o poeta acalantou e procurou desvendar com palavras por dizer. “Um batom/ mancha a boca/ no gosto ardente/ de um beijo”. A poesia além do delírio gera gentileza e encanto. Salve Jorge.

 

Batom de Amor e Morte

Por Jorge Amancio

Nos anos 80, a noite em Brasília começava na comercial da 109 Sul, no Beirute e dali saiam; as festas, os encontros, a agenda cultural, o pulsar da cidade. A esticada passava invariavelmente pelas casas noturnas como Jangadeiro onde podia se comer uma das melhores peixadas, o Sereia o melhor cardápio, o Castelinho, o Cavalo de Ferro do grande Messias, dentre outros lugares. Uma legião de jornalistas, políticos, artistas e boêmios, aliás, todos boêmios, tinham cadeiras cativas no circuito boêmio de Brasília. A música da noite começava no Chorão na 302 Norte e amanhecia cantando numa feira, numa padaria ou esticava para a casa de alguém para repor as energias, uma Brasília de todos.
No clima dos anos 80 em Brasília, de casas onde o cardápio era cultura brasiliense o Bom Demais da Cristina Roberto, a praça vermelha, o Bar da Raimunda, o subsolo do Conic com o surreal beijo à realidade de uma cidade que pulsava 24 horas com seus biônicos, seus funcionários e seus subterrâneos. No Gama, o Cervejinha e o bar do Careca em Taguatinga eram circuito obrigatório para qualquer bate papo regado a álcool, política, amores e outros ingredientes mais.
Nesse universo foi escrito Batom de Amor e Morte em guardanapos, pedaços de papel, alguns datilografados, muitos perdidos. O jornalista Marcelo Sirkis numa conversa no bar Belas Artes, do Ivan da Presença, no ainda sobrevivente Conic, assume a captura, a organização dos poemas, os quais foram copiados para um disquete e só anos depois pude ver o resultado e graças a esta cópia feita pelo Marcelo pude resgatar e transformar o projeto em livro.
Trinta anos após, o computador é mais do que uma ferramenta, é uma extensão do homem, os disquetes já não são mais usados, a internet modificou o conceito de distância, as casas noturnas estão fechadas, os bares encerram-se as duas da manhã, a cidade mudou, o boêmio de trinta anos atrás não existe, a boemia é outra, os lupanares são outros. Talvez não falem de política, não leem poesia, não acordem na feira do Guará, talvez sejam boêmios sem Lupicínio Rodrigues.
Inúmeras pessoas participaram comigo nesta universidade que é a noite brasiliense. Agradeço a todas pelos poemas, pelo poeta, pelo boêmio aposentado que hoje sou. Uma pessoa a quem eu dedico este livro, com um agradecimento especial, ao jornalista que era só coração Wilson Miranda, o Brother.
O romantismo do boêmio lupicíniano numa viagem aos bares, becos e submundo é a temática dos poemas de Batom de Amor e Morte.

Para um Brother Amigo
para Wilsom Miranda
(em memória)

embevecido de africanidade
de uma origem de um exótico
de um gótico de uma magia
de um poema de uma perda
de uma pedra de uma ida
de um passado construído

amor e dedicação
conhecimento e respeito
laços de uma vida
de uma cumplicidade
de uma irmandade

pela insensatez
além de briga de criança
ao desfazer a esperança
meu elo, minha origem

pelo pacto
nunca selado nunca quebrado
sempre presente, sempre cumprido
sempre em mim, sempre em ti
ausente em mim, ausente em ti

de não saber o que é amizade
e o quão perto do amor estive
perdoe-me

 

 

 

 

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