Foto de uma Conversa

Por José Geraldo de Sousa Junior
Eu poderia alinhar múltiplas razões para pautar este Lido para Você sobre este livro em especial, neste momento. Uma primeira razão decorre logo da dedicatória manuscrita, feita pelo autor por ocasião do lançamento: Ao velho amigo Zé Geraldo que foi testemunha desta conversa. Uma segunda razão, não menos importante, ao menos para mim, vem do título – Foto de uma Conversa – certamente porque as fotos da capa e do miolo, retratando Celso Furtado e o autor Cristovam Buarque, foram tiradas por mim, durante a conversa, no gabinete do entrevistado em  Jussieu, Paris, 6eme Arrondissement, pertinho da estação do Metro Jussieu, entre a Paris 7, Sorbonne e a Universidade Pierre e Marie Currie.

Foto: Open Source

De fato, esse registro está nos créditos da edição e o próprio autor informa no Prefácio:

Em janeiro de 1991, o mundo foi surpreendido com a invasão do Kuwait pelas tropas do Iraque. Como resposta, o presidente Bush (pai) iniciou uma guerra pela expulsão dos invasores. O mundo assistiu à primeira guerra em tempo real pela CNN. A guerra de informação ficou monopolizada pelos norte-americanos. Nesse contexto, o governo argelino decidiu organizar um evento com personalidades mundiais, para que conhecessem a versão árabe do conflito e produzissem um documento pela paz. Fui convidado a participar desse evento e indiquei o professor José Geraldo de Souza, também da UnB.

Depois de intensos debates em Argel, decidi passar alguns dias em Paris, no regresso para o Brasil. Como sempre fazia ao passar pela cidade, liguei para o professor Celso Furtado. Dessa vez, consultei-lhe sobre a possibilidade de fazer uma entrevista: eu vinha entrevistando outros economistas de sua geração. Celso Furtado aceitou de imediato e me recebeu no dia 8 de março de 1991. Durante quase toda a tarde, das 15h30 às 18h, em seu modesto apartamento térreo do número 11, rue Guy de la Brosse, conversamos em torno de uma mesa – ele, sua esposa, Rosa Freire d’Aguiar Furtado, e José Geraldo.

Obra “Foto de uma Conversa”.

Uma razão maior me dirigiu a resgatar esse pequeno texto, enriquecido por notas e glosas de atualização que o seu autor Cristovam Buarque inseriu na edição da entrevista. E essa razão está em recuperar as preocupações de dois economistas profundamente humanistas que se destacam quando na conjuntura corrente, no mundo e no Brasil, as opções que as políticas econômicas oferecem se circunscrevem às receitas do neoliberalismo cujo único resultado  recorrente tem sido, ao fim e ao cabo, prover o interesse da acumulação de capital ao preço da mercantilização da vida.

Fio-me em Avelãs Nunes, conforme minha leitura de sua obra Neoliberalismo e Direitos Humanos (http://bit.ly/2xVZAm6), para quem a aproximação mediada pela economia política e pela filosofia, e mais propriamente por teorias da justiça, contra esse modelo,  segue uma linha civilizatória que mais se afasta das opções que mercantilizam a vida,enquanto se orienta para projeções que garantam o direito à vida plena. Para este autor, antigo vice-Reitor da Universidade de Coimbra, não poderia ser mais contundente e na contracorrente dos ensaios de austeridade em curso aqui e alhures apoiados por golpes institucionais e juridicidades de exceção dar-se conta de que o projecto neoliberal está condenado ao fracasso  e já é possível pensar em alternativas credíveis de um mundo de cooperação e de solidariedade, um mundo capaz de responder satisfatoriamente às necessidades fundamentais de todos os habitantes de planeta.

Na entrevista retratada, a partir de pergunta acerca das frustrações vivenciadas em face das expectativas de desenvolvimento para o Brasil e para a América Latina – p. 67-77 –  transparece a grande lição do notável planejador, fundador da SUDENE e da CEPAL e Ministro da Cultura na Nova República instalada em 1985:

Cada um tem seus problemas, a humanidade aprendeu a se governar para certas coisas, não para outras. O fato de o Brasil – ainda não se pensou bem nisso – ter tido um desenvolvimento retardado, ter começado muito tarde o seu processo de industrialização, e ter-se instalado cedo demais na sociedade de consumo, sem completar seu sistema nacional – estávamos completando-o quando o mundo já tinha se reciclado -, causou-nos problemas de uma magnitude que exige grande estadismo. Não me desespero, porque os brasileiros aprenderam e já se reciclaram muitas vezes. Mas a verdade é que não vai ser com essa superficialidade que se vê hoje no Brasil. Modernizar um país! Isso não pode ser visto como se fosse carnaval, quando se põe uma fantasia nova por uns poucos dias! Sem mudar o essencial, nada vai se resolver. Considere um país com o acúmulo de problemas sociais que temos, com um sistema econômico um pouco deslocado, porque o Brasil fez o seu desenvolvimento industrial muito tardiamente, e o fez com base no próprio mercado interno. Pois bem, esse quadro foi superado, uma economia fechada hoje em dia não funciona mais, e agora estamos numa situação totalmente nova, com imensos problemas e sem nenhum apoio internacional.

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O país precisa definir um projeto novo, entender seus problemas sociais, pensar o importante. Não é pensar que, por exemplo, basta abrir o seu mercado, fazendo do Brasil uma grande Manaus. O Brasil ainda está na fase de que o essencial é homogeinizar. Só se consegue homogeinizar uma sociedade, uma economia, por meio de uma definição de fronteira. Se abrirmos completamente, não teremos mais nenhuma possibilidade de coordenação interna.

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O dano maior que se fez ao Brasil foi interromper o aprendizado democrático. Criamos um país dirigido tecnocraticamente com uma forma cega e pobre de ver a sociedade em um momento decisivo para o Brasil e para a humanidade. Numa sociedade com liberdade as pessoas têm muito mais influência do que numa sociedade ditatorial.

Uma derradeira razão me faz voltar a dar atenção ao trabalho simultaneamente acadêmico e político de Cristovam Buarque, cuja amizade cultivo a mais de 40 anos, iniciada nos anos tensos da resistência democrática contra a ditadura instalada no Brasil em 1964 e numa convivência estreitada nesses dois planos, fortalecida a partir dos anos de redemocratização quando o acompanhei em seu reitorado na UnB – 1985 a 1989, primeiro como Chefe de sua Assessoria Jurídica e depois como seu Chefe de Gabinete.

Foto: Open Source

Na UnB pude acompanhar e contribuir para o projeto de redemocratização da Universidade de Brasília e para a atualização de sua planta epistemológica, notadamente criando condições para a institucionalização de seu desenho institucional (presidi o Congresso Universitário paritário que esboçou o desenho de uma universidade tridimensional que repensasse o paradigma de conhecimento pela interdisciplinaridade, pela articulação entre conhecimento científico e sabres populares, pelo diálogo intercultural.

Duas notas sobre esse momento: a instalação na UnB e em Brasília do FLAAC – Festival Latino-Americano de Arte e Cultura (que no meu reitorado entre 2008 e 2012 eu reinstalaria com a mesma sigla mas incorporando a africanidade) e a criação das estruturas de interdisciplinaridade entre elas, principalmente, o CEAM – Centro de Estudos Avançados Multisciplinares, unidade de integração e de coordenação de núcleos temáticos interdisciplinares para engajar interinstitucionalmente processos de conhecimento não redutíveis ao modelo compartimentalizado-departamental de áreas segmentadas da organização do modelo humboltiano da universidade moderna, positiva e disciplinar.

Nesse ambiente novo fundamos, eu o Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos, em cujo espaço desenvolvi o projeto teórico-crítico de O Direito Achado na Rua; ele, o Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo, voltado para a construção de alternativas de política públicas para o desenvolvimento, com uma visão de inversão ética das prioridades econômico-sociais pensando em um novo projeto de País. Nos debates desse núcleo, coordenados regularmente pelo próprio Cristovam Buarque, surgiram propostas avançadas, entre elas, a que deu origem a programas que ele implementou como Governador, Ministro da Educação e Senador da República. As mais destacadas dessas propostas a de erradicação do analfabetismo, reforma universitária, orçamento participativo e a bolsa-escola hoje universalizada como bolsa-família. Sobre essas propostas e seus fundamentos conferir Revista Humanidades, volume 8 n. (4) 30. Brasília; Editora UnB, 1992 (Transdisciplinaridade na UnB); também a resenha que elaborei sobre o seu livro A Desordem do Progresso. O Fim da Era dos Economistas e a Construção do Futuro. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1990, 186 p. (Revista Humanidades. Brasília: Editora UnB, vol. 7, n. 2, 1991, p. 201-202); conferir ainda  os elementos conceituais, metodológicos, funcionais e programáticos para uma reforma universitária, em A Universidade na Encruzilhada. Universidade: Por que e como Reformar?, editado por MEC/UNESCO, 2003, síntese de Seminário Nacional com o mesmo título, 2003 e A Universidade no Século XXI, MEC/UNESCO, Anais do Seminário Internacional com o mesmo título, realizado em 2003; sobre a bolsa escola ver da professora da Universidade de Oklahoma MORAIS DE SA E SILVA, Michelle . Conditional cash transfers and improved education quality: A political search for the policy link. International Journal of Educational Development , v. 45, p. 169-181, 2015, um estudo comparado das políticas de bolsa-escola de Bogotá, Nova Iorque e Brasília; ver também ARAÚJO, Carlos Henrique. Bolsa Escola: Renda Mínima Associada à Educação. O Governo Cristovam Buarque e a Bolsa-Escola; do próprio BUARQUE, Cristovam, com ARAUJO, Carlos Henrique e AGUIAR, Marcelo. Bolsa-Escola e Renda Mínima: Similitudes e Diferenças. Em VEIGA, Ilma Passos Alencastro et al (orgs). As Dimensões do Projeto Político-Pedagógico. Campinas: Papirus Editora, 2013; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de.  Avaliação do Impacto sobre as Famílias Beneficiárias. Programa Bolsa-Escola do Distrito Federal. In PÓLIS. Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais. Programas de Renda Mínima no Brasil: Impactos e Potencialidades. São Paulo: Instituto Pólis, n. 30, 1998, p. 49-58 e 59-108; sobre orçamento participativo no Distrito Federal, no governo Cristovam Buarque, pesquisa completada mas ainda não publicada de Nair Heloisa Bicalho de Sousa; sobre O Direito Achado na Rua, ver nesta Coluna Lido para Você: http://bit.ly/2QaFE5H, acesso em 16/01/2019).

De minha resenha acima indicada, recorto um trecho:

O fio condutor dos nove ensaios do livro é a consciência da crise. Antes de tudo, crise de paradigmas: científicos, sociais, culturais, morais, políticos e existenciais. Porém, numa conjuntura de transição para novos modos de produção de conhecimento, uma crise de crescimento. Pois, se é perceptível a limitação da matriz tradicional – a neutralidade e objetividade científicas e a separação entre o homem e a natureza – à base da qual as relações sociais são postas e se reconstituem, a verificação mais evidente é a de esgotamento do paradigma elementar dessas relações, constitutivas do processo civilizatório: o progresso.

Trata-se, como diz Buarque, de empreender uma revisão dos objetivos da modernidade capaz de subordinar a economia a objetivos sociais (p. 74). Desde esta perspectiva, a análise dos modelos de desenvolvimento pressupõe, esta é a sua proposta, uma etapa superior de racionalidade sensibilizada por novos valores constitutivos de uma ética reguladora da intervenção humana, tanto como prática intelectual, quanto como práxis social.

Uma centena  de livros depois, um portfólio robusto em propostas e intervenções globais que o caracterizam como um verdadeiro humanista, homem de causas, que se orgulha, diz ele, de ter bandeiras, o levam a figurar seguidamente dos indicadores de alto desempenho, principalmente parlamentar. Nesse ano de 2018, em que encerra seu último mandato senatorial pelo Distrito Federal (não foi reeleito), á capa da Revista Congresso em Foco, ano 7, número 29, setembro de 2018, que o distingue como líder do ranking dos melhores senadores do país e que o coloca, ao lado de Chico Alencar (que também deixa o Congresso), entre os mais premiados da história do Prêmio Congresso em Foco (p. 24).

Claro que é possível discordar dele em muitos pontos de seu enorme espectro de conceitos e de formulações, que incluem uma bem sucedida incursão na ficção, sendo um destacado ficcionista no estilo surreal latino-americano, como tal, objeto de estudos doutorais nesse campo. Desde Astrícia, seu primeiro romance, até os premonitórios A Ressurreição do General Sanchez (1981) A Eleição do Ditador (1988), o imaginário narrativo não disfarça, o que é próprio do surrealismo, enquanto realismo mágico, o empenho de se apropriar do real por meio de outra linguagem. Inclui-se nessa coleção Os Deuses Subterrâneos, uma criativa alegoria da origem do humano que aqui registro para estabelecer de certo modo o método criativo de Cristovam Buarque. No prólogo do livro ele registra o começo de nossa viagem a Argel para indicar um fato real: o número  da poltrona, na qual, em nosso mesmo vôo, viajava no trecho Rio-Paris, o Cardeal Eugênio Sales. Se alguém pretende-se, a propósito dessa indicação, constatar a veracidade desse fato, ipso facto poderia tomar como verdadeira toda a fantasia narrada na novela.

Voltando as divergências, quero dizer que eu próprio, mais no campo filosófico-político, não obstante o reconhecimento da enorme força interpretativa que ele carrega, tenho as minhas discordâncias. Na abertura mesmo deste Lido para Você, citando-o, enquanto ele fala de invasão do Kuwait, eu que o acompanhei nessa viagem, sendo ambos os únicos latino-americanos presentes no Colóquio Internacional de Argel, fiz uma leitura diversa, e me referi ao movimento de retomada do Coveite arrancado do Protetorado do Califado de Bagdá por ocasião dos acordos secretos (Acordo Sykes-Picot) feitos por cima entre o Reino Unido e a França (1916), para definir suas respectivas esferas de influência no Oriente Médio, particularmente na região entre a Síria e o Iraque, em todo o caso de modo muito conveniente para a ação das irmãs petrolíferas que puderam atuar com ampla liberdade com a criação artificial e a elas proveitosas do novo Estado do Coveite que desse processo resultou (conforme SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. A Crise do Golfo: a Deriva do Direito. In SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Sociologia Jurídica: Condições Sociais e Possibilidades Teóricas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. 2002, p. 133-144).

Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil

Mas a divergência de maior intensidade e mais sofrida se armou agora após o Golpe que conduziu ao afastamento da Presidenta Dilma Roussef e à armação da formidável conspiração que instalou no País, como diria Cristovam, com a eleição de um ditador, de uma plataforma antagônica à que foi pactuada na transição pós 1964,  com a Constituição de 1988 e com um projeto de recuperação democrática, gestionado por uma governança de base social-popular-participativa forte na distribuição inclusiva da riqueza social e na retirada da mediação do mercado dos bens de interesse social, como saúde e educação.

Que se tratou de um Golpe tem sido meu ponto de vista, política e academicamente sustentado, entre outros registros (SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Estado Democrático da Direita. Em BUENO, Roberto (Org). Democracia: da Crise à Ruptura. São Paulo: Editora Max Limonad, 2017, p. 407-412; SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Resistência ao Golpe de 2016: Contra a Reforma da Previdência. Em Gustavo Teixeira Ramos et al. (coords). O Golpe de 2016 e a Reforma da Previdência: Narrativas de Resistência. Bauru: Canal 6 (Projeto Editorial Praxis), 2017, p. 242-246).

A síntese desse entendimento, expressa em diferentes oportunidades, está também em texto desta Coluna Lido para Você, quando reafirmo  o que estamos assistindo agora em nosso próprio País, com a Constituição arguida contra a própria Constituição, para dela extrair-se, com o uso meramente formal de seus enunciados, como por ocasião do afastamento da Presidenta da República, numa aplicação de retórica mobilizadora de engajamentos (sociais, políticos, jurídicos), delirantes de seu necessário fundamento material; na seletividade de decisões envolvendo lideranças de oposição político-partidária; na tipificação criminal do protesto  social; na judicialização da política; tudo levando à configuração desse processo como um golpe, sem armas, sem quartelada, mas uma ruptura com a base de legitimidade do sistema constitucional-jurídico, um atentado à democracia, uma forma de traduzir, sem nenhuma sutileza, o Estado de Exceção Democrática, que se vale da lei e da Constituição para esvaziá-las de suas melhores promessas (por todas http://bit.ly/2vt31Q5).

Cristovam Buarque, como sabemos, aderiu a essa articulação, embora por razões interpretativas tal como o ouvi defender, substituindo com o princípio parlamentar da desconfiança um governante e um programa de governo que, no presidencialismo somente pode ser modificado pelo povo em sufrágio direto universal, a menos que se caracterize o crime de responsabilidade, artifício que afinal foi empregado, mesmo que Cristovam estivesse convicto de que crime não houve.

O significativo é que ele somou com a conspiração, e não apenas com o voto de afastamento, mas com apoio às medidas (reforma trabalhista, PEC do Teto de Gastos) que, lembra Avelãs Nunes acima, levam a prover o interesse da acumulação de capital ao preço da mercantilização da vida.

De fato, pensando atravessar o Mar Vermelho rumo a uma terra prometida, acabou por provocar o afogamento dos mais carentes da sociedade, exatamente aqueles em favor dos quais orientou, com solidariedade ética, os projetos exemplares que marcaram a sua vida pública. Não sei se o resultado é correlato a sua tomada de posição, que custou-lhe a reeleição, em outras circunstâncias, segura. Não recebeu votos suficientes da direita que não o reconheceu nos ideias e perdeu votos suficientes à esquerda, frustrada, decepcionada, ressentida, com a curva da estradade uma de suas principais expressões.

Vali-me da expressão curva da estrada, exatamente para aludir a um dos mais importantes livros do escritor português Ferreira de Castro: A Curva da Estrada. No livro o autor escreve sobre políticos que encarnavam as aspirações populares e cujo problema era permanecerem fiéis a essa opção de classe ou desviarem-se dela. Ali está Soriano, o líder socialista, antes um revolucionário que teve uma juventude muito combativa, que estava muito perto dos homens que o elegeram e tinha amigos de grande retidão,  mas que pouco a pouco foi sendo afetado, contaminado pela vida da burguesia: o conforto, o prestígio, as honrarias, os altos postos.

Soriano, resume a apresentação da obra,  sofre a influência da pressão familiar, de amigos próximos ditos realistas, e à volta dele da gente rica, os conservadores, que se multiplicam em movimentos de sedução, porque de fato ele é uma pessoa que traria à Direita o prestígio do seu passado irretorquível abonado por uma vida pública exemplar. O romance é fundamentalmente expressão da vida interior. E, felizmente, para o leitor que torce pelo personagem, quando parece que Soriano vai passar-se para o outro lado, que vai escolher a riqueza, a pomposidade burguesa, embora saiba que os melhores amigos o hão de julgar severamente, decide não trair e continua fiel aos seus ideais. Nas últimas páginas do livro o seu amigo Pepe Martinez felicita-o fraternalmente quase como herói. Traz-lhe a consolação de haver permanecido limpo.

A Curva da Estrada tornou-se uma metáfora para ilustrar essas clivagens políticas e até existenciais. Têm sido notáveis aquelas que registram a conversão: o fariseu Paulo de Tarso, na estrada de Damasco, para vivenciar a sua cegueira e reorientar a direção de seu caminho; Agostinho, livrando-se das injunções do maniqueísmo; Dom Helder Câmara, evangelizado ao evangelizar pelo chamado do Concílio Vaticano Segundo deslocando-se de vez de seu integralismo originário para fazer a opção teológica de libertação na opção pelos pobres; Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), convertido ao catolicismo na sua dimensão mais ortodoxa, combinando com algumas afinidades que lhe granjearam relevo (Reitor da Universidade do Distrito Federal – UDF para substituir no interesse do estado Novo o reitorado de Anísio Teixeira), logo é também arrebatado pela convocação do Concílio Vaticano II e vai formar a frente de resistência aos paroxismos repressivos da Ditadura de 1964, contra a censura, a tortura, a seletividade da lei de segurança nacional; Norberto Bobbio, resgatado de seu positivismo normativista por emulação do filho socialista que trouxe sua inteligência para discutir exatamente qual socialismo, o que é ser esquerda; Teotonio Vilela, emancipando-se da origem oligárquica ao despertar da violência política em sua cruzada contra a tortura do regime de 1964; todos celebrados por terem encontrado a direção de compromisso com o social – o que em última análise define o ser esquerda – e terem logrado fazer a curva da estrada.

Nós os respeitamos e até amamos, por isso. Não se trata de absolver o pecado, mas de resgatar o pecador.  Como em relação a Soriano,  o seu amigo Pepe Martinez que felicita-o fraternalmente quase como herói. Traz-lhe a consolação de ter, apesar das hesitações e dos desvios, no fim,  permanecido limpo.

Há poucos dias, precisamente no dia do Natal, morreu Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, este que permaneceu sempre limpo. Não tomou atalhos do caminho. Não precisou fazer a curva da estrada. Cristovam encontrou em Sigmaringa uma referência de dignidade política, um paradigma para conferir o tempo do serviço digno que é proporcionado pela política, quando leal ao bem comum, que o Papa Francisco considera a dimensão sublime da fraternidade (Evangelii Gaudium. A Alegria do Evangelho, n. 205: A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum).

Em artigo publicado no dia 31 de dezembro de 2018, p. 9, no Correio Braziliense – Sigmaringa: a morte de um tempo, Cristovam apela a seu exemplo e a sua exortação: Era capaz de manter a amizade por meio do choque de ideias e dos votos divergentes. No tempo em que está difícil reunir até familiares quando os parentes escolhem candidatos e lados diferentes na política, Sig mantinha as amizades até mesmo com adversários. Ele queria saber apenas se o outro votava pensando no Brasil, nos valores morais, com sua própria consciência, não importando o voto ou a opção política. Era capaz de pensar se o outro tinha razão, e se achasse que não tinha, enfrentava, mas não rompia, não agredia, não ofendia.

Talvez, por isso, na celebração da ressurreição em intenção de Sigmaringa Seixas, no 7o. dia, Padre Vírgilio Uchôa, grande amigo e co-fundador da Comissão Justiça e Paz, ditou um homília de reconciliação, de renovação de compromisso e de recuperação de alianças para a defesa da democracia, para a afirmação da justiça e para a promoção e defesa intransigente dos direitos humanos. Lembrou protagonistas dessa história pelo testemunho de seus percursos e projetos. Citou Cristovam Buarque.  Buscou no Papa Francisco o magistério da misericórdia. Tanto mais exigente quanto em face de condições históricas dramáticas em que alianças se desfazem e se quebra a fidelidade aos pactos estipulados: a misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A superação da justiça se faz na linha da misericórdia (Misericordiae Vultus [O Rosto da Misericórdia]. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 2015, n. 21).

Posso dizer, nessa disposição, que Cristovam Buarque continua sim, a ser um político e um pensador de esquerda. Na resenha que fiz de seu livro A Desordem do Progresso, retiro um trecho da p. 159, da obra, para constatar:

Não à toa, Buarque inclui entre os ensaios como fecho de coletânea, uma discussão sobre as forças da modernização. É uma chamada para o debate necessário sobre as esquerdas e as estratégias possíveis para o socialismo. Na verdade, uma alternativa socialista para o socialismo, em condições de criar uma teoria com conceito de classe, com desejo de futuro, com valores específicos e reais, saída de dentro do real do qual faz parte a cultura sincrética do povo (SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Humanidades, vol. 7, n. 2, p. 202, cit.).

Curiosamente, em Foto de uma Conversa, uma glosa marginal de Cristovam Buarque, repõe essa questão, expondo-o vivamente enquanto capacidade de superar a sua condição atual de intelectual convocado para causas. Na passagem – p. 63 – ele cuida de circunscrever a resposta de Celso Furtado sobre a questão do crescimento. Diz Buarque:

 Nos assusta a resistência dos governos brasileiros em procurar caminhos próprios, que permitam ao Brasil atravessar os próximos anos ou décadas de incertezas quanto às relações de poder no mundo, e em estar pronto para atender aos sonhos de sua população. O caminho para isso é um choque social que mude nossa realidade social, especificamente na educação. Qualquer que seja o futuro das disputas internacionais, só um país educado e unificado pelo fim da apartação poderá sobreviver livremente, eficientemente e com justiça.

Trata-se, pois, de sair do susto que as propostas governamentais neste momento provocam e de organizar, à esquerda, isto é, no compromisso com o social e não com a banca, a disputa por um projeto que atenda aos sonhos do nosso povo.  Adotar a disposição definida por Dom Pepe Mujica, segundo o qual ser de esquerda é ter uma posição filosófica perante a vida onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo. Então, veremos se a disposição de Cristovam para resistir à ganância expropriadora e para participar da construção desse projeto, mostrará o ponto de inflexão de sua curva da estrada.

José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil, Professor Associado IV, da Universidade de Brasília e Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.

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