A ditadura militar e minha vida – parte II

O Pessoa e o esquadrão da morte

Por João Orozimbo Negrão

O desprezo pela polícia militar tinha uma explicação. Os PMs batiam nos amigos e matavam qualquer um. Naquele começo dos anos 70, a molecada gostava de caçar passarinho e codornas selvagens nas matinhas de cerrado nas beiradas do poção do córrego Botafogo, onde a moçada do bairro ia nadar, nas proximidades do antigo Automóvel Clube,que hoje virou um parque em Goiânia.

Alguns anos depois seria construído próximo ao local o Estádio Serra Dourada. E era bem ali no terreno que abrigou o estádio, parte da antiga fazenda do Lourival Loza, que costumávamos deparar com corpos desovados. Um pavor, mas a gente sempre aparecia por lá e invariavelmente tinha aquele cheiro horrível de lixo com ossos queimados, que não tínhamos a menor noção se era de cachorro morto ou de corpo de gente.

Eu e os amigos não tínhamos a menor consciência do porquê de tantas mortes. Ouvíamos que tudo era obra de “um esquadrão” e que as autoridades diziam que podia ser coisa de subversivos do tipo que guerreavam em Xambioá. Até que aconteceu uma coisa muito louca para todos nós: o Pessoa foi preso. “Como, o Pessoa? Mas ele não é da polícia?” Para nós policial ser preso era coisa de outro mundo.

Um dia tivemos a notícia de que um corpo esquartejado havia sido distribuído por vários pontos Praça Cívica, em Goiânia: o tronco foi parar na escadaria do Fórum, uma perna para a porta do Tribunal de Justiça, a outra no portão da prefeitura, um braço ficou perto da guarita do Palácio Esmeralda, o outro ninguém encontrou e a cabeça foi entregue a um juiz embrulhada numa caixa de presente.

Mas é que ninguém desconfiava que o Pessoa, aquele cara grandão que gostava de brincar de bola com a gente e os irmãos dele no campinho que ficava debaixo da torre de alta tensão, perto da serraria, que era cabo da PM, fazia parte do tal “esquadrão da morte” e que os corpos que a gente encontrava na matinha onde hoje fica o Serra Dourada eram a maioria suas vítimas.

O baque foi grande para todo mundo, medo para tudo quanto é lado. Tempos depois fiquei mesmo foi com pena da família do Pessoa, principalmente dos seus irmãos, que eram colegas de jogar bola no campinho da torre. Eles foram estigmatizados, xingados na rua, na escola e todo mundo evitava passar perto da casa deles, que ficava ali meio apertada entre as ruas Taubaté e Cruz Alta, bem em frente ao campinho.

Tinha um capinzal bem alto ali e fizeram até um mutirão para limpar o mato que cobria a trilha por onde todo mundo passava vindo das proximidades do Colégio Assunção, no Jardim Brasil, onde ficava o ponto de ônibus mais próximo para nós que morávamos quase perto da rodovia BR 153.

O temor é que o Pessoa fugisse da cadeia e matasse algum vizinho. Paranoia total. Até que um dia eis que o Pessoa aparece do nada, justamente no campinho, organizando uma pelada com os vizinhos. Foi quando um carro passou por lá e o levou para nunca mais voltar. Seu corpo foi encontrado bem do outro lado da matinha do Serra Dourada, quase lá perto do Setor Pedro Ludovico. Depois disso, a família do Pessoa mudou do Novo Mundo e ninguém mais ouviu falar deles.

Mais tarde a minha consciência política me revelou que os esquadrões da morte atuavam com grande freqüência e desenvoltura por todo o país na época da ditadura militar. Eram obras daqueles tempos sombrios, dos anos de chumbo, cuja violência e a impunidade dos aparelhos repressores permitiam uma atuação amplificada no aparelho policial contra a própria sociedade, contra o próprio povo, potencial inimigo dos ditadores.

O que acontecia devido à falta de controle social, a corrupção e a sanha assassina de comandantes e comandados na polícia treinada e naquela época sob a jurisdição direta das Forças Armadas era a reprodução dos atos dela própria na feroz repressão política. E por causa da censura à imprensa e da proibição de abrir a boca contra as arbitrariedades na sociedade civil os “pequenos” déspotas iam se multiplicando por todos os lados.

Logo, os esquadrões da morte eram a expressão do autoritarismo, da barbárie, da completa falta de respeito aos direitos humanos, disseminando o que acontecia nos porões da ditadura, dentro e fora das câmaras de tortura. Formados por policiais civis e militares, os esquadrões era os que são as milícias hoje em dia.

Na época da ditadura, as polícias militares eram comandadas por coronéis do Exército e, até hoje, parte do seu oficialato era oriunda dos núcleos (ou centros) de formação de oficiais da reserva das Forças Armadas, os chamados NPOR ou CPOR. Isto explica em parte a forma violenta com são formados os policiais (e inclusive bombeiros) militares brasileiros, treinados para a guerra e a enxergar na população pobre, em especial negros e favelados, um inimigo a ser eliminado.

 

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