A ditadura militar e minha vida – parte III

Aulas de inglês, abaixo-assinado e cantores “internacionais”

Por João Orozimbo Negrão

Não bastasse os que portavam armas e algemas, havia toda a sorte de gente nos vigiando. Na escola, no bairro, na igreja, nos bares, nos campinhos de futebol. Uma simples reunião na associação de moradores era proibida e nosso grupo de jovens da igreja tinha que ter permissão do padre, que reportava à polícia sobre o onde, o quê, porque e para que íamos fazer. Um mero abaixo-assinado quase custou a prisão do meu pai e da professora Enilda, aquela que inspirou a organização do cover mirim dos Secos & Molhados.

Seu Negrão, um ‘subversivo’

A professora Enilda Garcez Lima era uma dessas almas iluminadas que passam pela vida da gente e nunca saem. Ela lecionava Educação Moral e Cívica para o ginasial e Estudos Sociais para as série do colegial, se não me falha a memória. Mas era também professora de inglês numa escola particular no Setor Sul, onde morava. Não havia na nossa escola pública o ensino de inglês e a turma era louca para estudar a disciplina. Então ela se propôs a nos ensinar todas as tardes de sábado.

Era um trabalho extra-classe, sem nenhum vínculo com o currículo da escola. Apenas uma iniciativa de uma professora bacana que queria ver seus alunos felizes. As aulas de sábado foram aumentando, alunos de outras séries queriam também aprender. A professora Enilda não dava só aulas. Ela também organizava brincadeiras, apresentações de músicas (foi aí que surgiu o cover mirim do Secos & Molhados), recitais de poemas e esquetes teatrais (foi aí que me inspirei a criar o meu grupo de teatro Pé na Terra).

Nas aulas quem quisesse levava uma letra de música em inglês que ela ensinava a partir das músicas. Nunca consegui emplacar Time, do Pink Floyd, e Child in Time, de Deep Purple, que eram as bandas que, ao lado de Secos & Molhados e Jackson Five, faziam a minha cabeça e a da minha turma na época. As meninas, fãs de Pholhas, Morris Albert e de Chrystian, acabavam emplacando as músicas delas, especialmente Fellings, grande sucesso daqueles idos de 73.

Chrystian, aliás, era pseudônimo norte-americanizado do, na época, um garotinho goiano de nome bem brasileiro, José Pereira da Silva, que fazia sucesso cantando em inglês, como boa parte de cantores brasileiros que só alcançavam a fama se cantassem em inglês, dado ao nível de colonização cultural que estávamos submetidos naquela época da ditadura. Foi assim também com o próprio Pholhas, com Fábio Junior (Mark Davis), Maurício Alberto (o Morris Albert), Jessé (Christie Burgh), Sérgio Reis (Johnny Jonson) e muitos outros.

Toda a movimentação na Escola Bárbara Souza de Moraes acabou causando um reboliço no bairro e das aulas a coisa evoluiu para um movimento cultural que começou a ser olhado com suspeitas por reacionários dentro e fora da escola. Até que chegou a ordem da Secretaria de Educação de Goiânia para acabar com as aulas da professora Enilda.

Revoltados, pais a alunos se mobilizaram para evitar o fim das aulas e das atividades culturais. Então vem a determinação para demitir a professora. Foi aí que meu pai entrou em ação. Logo organizou um abaixo-assinado que mobilizou toda a comunidade escolar, do bairro e a associação de moradores. Mas a direção da escola, que cumpria “ordens de cima”, não podia fazer nada.

E não só não fez nada como deu vazão a uma série de fofocas que só não destruíram a reputação da professora Enilda porque ela era de fato muito querida e competente. Ela foi tachada de “agente vermelha”, “financiada por comunistas”, “lavagem cerebral dos alunos” e até um amante no bairro disseram que ela tinha, na tentativa de destruir seu sólido casamento com um engenheiro também muito humanista.

No final a professora Enilda perdeu o emprego e ainda teve que ir, junto com meu pai, depor na polícia. Meu velho José Orozimbo da Silva, o seu Negrão, passou o dia inteiro no DOPS sendo interrogado. Semi-analfabeto que era, os agentes quiseram saber quem eram os subversivos que estavam por trás da sua iniciativa de fazer o abaixo-assinado, já que meu pai sequer sabia “desenhar o nome”. Mal sabiam os agentes da repressão que eu e minha irmã Fátima escrevemos o cabeçalho do abaixo-assinado, com os termos ditados por meu pai..

Alguns dias depois apareceram uns caras estranhos na escola e todos os alunos que participaram das aulas de inglês e dos eventos culturais promovidos pela professora Enilda foram chamados um a um na sala da diretoria para responder perguntas. Lembro que todo nós tremíamos de medo e a tensão aumentava à medida que ia chegando a nossa vez.

A primeira pergunta era se sabíamos se a professora Enilda era comunistas. Depois se nossos pais faziam reuniões escondidas ou se ouviam rádio durante a madrugada. “Meu pai acorda todos os dias às cinco da manhã e liga o rádio, faz o café e varre o quintal”, pensei, mas não falei.

Boal, uma inspiração

E depois, tudo que organizamos sob a orientação da professora Enilda teve que ser desfeito. Até o cover de Secos & Molhados, que àquela altura já estava famoso no bairro. Para a alegria do padre Josef, também desfiz meu grupo de teatro. Só depois, já no início da década de 80 é que voltei com o grupo, montando peças sob a inspiração de Augusto Boal, cujos livros, em especial Teatro do Oprimido, devorava e tive a honra de conhecê-lo numa palestra sobre teatro invisível.

E a primeira peça, “Tá caro”, montamos dentro da linha Água Branca, uma das que servia o Jardim Novo Mundo e seguia para o bairro vizinho. A peça, que provocava um debate dentro do ônibus lotado, conscientizando sobre o caro e precário transporte coletivo para os bairros pobres da região.

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