A ditadura militar e minha vida – parte IV

“Amanhã ninguém precisa vir de uniforme”

Por João Orozimbo Negrão

Vamos dar um pulo de um ano em relação aos relatos do texto anterior. Não estou contando essas histórias com um rigor cronológico, embora procure seguir as datas desencadeadas. Então, de 1973 pulo para 1974, contudo ainda tenho coisas para do começo da década de 70. E vai ter muita história, triste, na maioria, infelizmente. Sigamos.

Médici

Estávamos em 1974. A ditadura, que vivia no auge dos seus anos de chumbo de Emílio Garrastazu Médici, ao mesmo tempo entraria num período de desgaste com a falência do chamado “milagre econômico” e de ensaio da chamada distensão com o sucessor Ernesto Geisel. Geisel teria vencido uma disputa interna de setores das Forças Armadas que desejavam emplacar um general mais linha dura, no pior estilo Médici.

Geisel

Esta era narrativa da época e que ganhou muita gente até há pouco tempo. Contudo, recentemente, descobre-se que Geisel, se governou num período não tão sanguinário quanto o de seu antecessor, ao menos tinha pulso tão firme quanto nas decisões de eliminar os adversários do regime, coisa que era atribuída aos linhas-duras que transitavam pelos porões de seu governo.

Admitir a existência de militares atuando clandestinamente à revelia do governo militar seria reconhecer a existência de um comando paralelo no aparato de repressão. Mas não era isto que acontecia. O regime estava coeso. E Geisel era seu comandante.

Há no período, para além dos sub-reptícios, fatos muito concretos que escancaram as tendências sanguinárias de Geisel. As mortes de Manoel Fiel Filho, Vladimir Herzog, ambos em 1975, e a conhecida “Chacina da Lapa”, em 76, na qual o regime dizimou praticamente toda a metade do comité central do PC do B, mostravam que Geisel não era aquele vovozinho “fofo” que Juca Chaves imortalizou ironicamente como “um filho de pastor alemão”.

Chacina da Lapa

Naqueles idos de 74 ainda ouvíamos falar da “guerra de Xambioá”, mas não ousávamos mais brincar dela nas horas de recreio na Escola Bárbara Souza de Moraes, no Jardim Novo Mundo. Falar daquilo estava proibido. E só fui saber cinco anos mais tarde que a “guerra de Xambioá” na verdade era a Guerrilha do Araguaia, heroico movimento de resistência ao regime militar que, de 72 a 74, combateu nas selvas do rio Araguaia, entre o Norte de Goiás (hoje Tocantins) e Sul do Pará.

Curiosamente fiquei sabendo explicitamente da tal guerrilha (a tal “guerra de Xambioá”) quando servia o Exército em 1979 e, durante as instruções do Pelopes (Pelotão de Operações Especiais) do qual eu fazia parte, o PC do B, que organizou a guerrilha, e ela própria, eram tratados como demônios. E foi justamente isto que me despertou a conhecer mais sobre a luta revolucionária e acabou me levando a conhecer o partido ao qual fui filiado por 39 anos e a ingressar nele clandestinamente ainda dentro do 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, extinta unidade do Exército em que servi em Goiânia. Mais adiante vou contar esta história.

Voltando ao emblemático ano de 1974. Geisel havia assumido em março daquele ano, após o desastre que se seguiu à farsa do “milagre econômico” de Médici. A ditadura, que estava no auge, começa a perder terreno devido à desmoralização econômica.

A proximidade das eleições parlamentares de novembro de 1974 assustava o regime. Especialmente porque um pouco antes, em julho, a Seleção Brasileira perdeu vergonhosamente a Copa na Alemanha. Como se sabe, a vitória do tri-campeonato em 1970 serviu de propaganda para o regime, que a explorou ao máximo dando o seu viés patriótico e, a partir daí, lançando slogans como “Brasil, ame-o ou deixo-o” e “Pra frente Brasil”. Falarei sobre isto depois.

À crise econômica e à derrota da seleção brasileira de futebol, soma-se uma epidemia nacional de meningite que matou milhares de brasileiros, especialmente crianças e adolescentes, mortes que poderiam ter sido evitadas ou reduzidas sensivelmente se não houvesse a censura, a desinformação e o ranço ideológico.

Em outros capítulos também vou tratar especificamente da meningite, da qual eu mesmo fui uma vítima, assim como meus irmãos Orozimbo Carlos e Clarice Angélica, que acabaram falecendo daqueles idos da metade da década de 70.

Era neste contexto que aconteceriam as eleições de 1974, que, aliás, formaria o Colégio Eleitoral que escolheria, em novembro de 1978, os governadores e o presidente da República. Lembremos que a ditadura fazia de tudo para manter um ar democrático e que as “eleições” para presidente e governadores “aconteciam”, ainda que indiretamente. A escolha indireta era feita pelos deputados estaduais (governadores) e deputados federais e senadores (presidente).

Até então, o governo militar, com sua Arena (Aliança Renovadora Nacional), sempre tinha maioria no Congresso Nacional para eleger o presidente e, nos estados, nas assembleias estaduais, para eleger os governadores seus aliados. O mesmo acontecia com os prefeitos das capitais dos estados e de municípios considerados de “segurança nacional”.

Havia ainda os chamados Territórios, que eram unidades da federação sem autonomia política e financeira, considerados também de “segurança nacional”, cujos dirigentes eram escolhidos a dedo pelos generais. É por isso que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal é chamado de TJDFT, Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios, já que estes nem justiça autônomo possuíam. Aliás, assim como os territórios, o DF totalmente dominado pelo governo federal, com governadores indicados e sem parlamento próprio. As atribuições que são hoje da Câmara Legislativa, na ditadura eram do Senado.

A ditadura temia perder terreno para o MDB, o histórico Movimento Democrático Brasileiro. Será preciso falar disso mais adiante, porque o MDB daquela época não é essa excrecência de hoje. Com o regime se desmoralizando cada vez mais, naquele período, na busca alucinada por votos, os candidatos da Arena começaram a utilizar um artifício que acabava dando efeito contrário.

Naqueles tempos, as escolas públicas, assim como qualquer outro órgão público, eram loteadas entre os políticos aliados do regime. Assim, todos os diretores e pessoal pedagógico e administrativo de todas as unidades escolares, em todos os âmbitos, estavam ali por indicação política e para servir aos interesses do político do curral eleitoral.

Lembram que a professora Enilda Garcez Lima foi demitida sumariamente? Sim! Isto porque naquela época não havia concurso público nem estabilidade no serviço público. Isto só passou a aconteceu com a redemocratização, em 1985, e a aprovação da Constituição Federal, a Carta Magna Cidadã, de 1988.

Voltemos ao quadro anterior. O regime e seus aliados aparelhavam, no mais radical deste termo, todas as estruturas do estado brasileiro, ampliando do âmbito federal para os âmbitos municipais e estaduais. Assim, vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores eram todos “donos” de escolas, indicando seus dirigentes e funcionários.

Dessa forma, os políticos da Arena, vendo que poderiam ser derrotados pelos do MDB, passaram a mobilizar funcionários e alunos para participarem de seus comícios no bairro ou em qualquer outro lugar da cidade.

Estranhamos muito quando, num belo dia do segundo semestre de 1974, a diretora da Escola Bárbara passou de sala em sala no período noturno informando aos alunos que no dia seguinte ninguém precisava ir de uniforme. Isto numa época em que ninguém conseguia entrar nas escolas sem não tivesse a “farda”. “Por que?”, indagamos. Ela não respondeu. Simplesmente reiterou: “Amanhã venha sem uniformes”.

No dia seguinte estávamos todos nós, alegres reunidos no pátio da escola, quando começam a chegar vários ônibus e caminhões. Aliás, mais caminhões, camionetes e até carroças. Sem explicar porque, os professores foram enchendo os veículos e com igual silêncio nos levaram lá do Novo Mundo para a Vila Nova, outro bairro de Goiânia, próximo à sua região central.

No meio do caminho até pensei que fossemos ver o treino do meu time na época, Vila Nova, o Tigrão. Mas que nada. A curtição maior era nos caminhões, feito pau-de-arara, transporte perigoso, mas que fazia a ruaça da molecada.

Chegamos a uma praça, onde havia um palanque e foram chegando mais e mais caminhões e ônibus de gente de vários bairros. Era um comício da Arena, mobilizada por vereadores e deputados “donos” de escolas de toda a região Leste de Goiânia, para aplaudirmos os candidatos à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal, mas especialmente candidato a senador da sigla, Manoel dos Reis Silva.

Outras e outras idas “voluntárias” a comícios da Arena se repetiriam até as vésperas de 15 de novembro, data da eleição. Mas aquilo, que causavam indignação, ao mesmo tempo o transformamos em divertimento, já que não passávamos uma semana sem o aviso da diretora: “Amanhã ninguém precisa vir de uniforme”. Era a senha para as meninas vestirem suas roupas de domingo e abusar da maquiagem e para os meninos exibirem suas roupas de ver Deus. E, lógico, a paquera rolava solta e os namoros foram surgindo, antes reprimidos pela vigilância implacável do bedel da escola.

Lázaro Barbosa

Votos mesmo que era o que os candidatos da Arena queriam inflando falsamente seus comícios não conseguiram. Aquilo tudo foi o tal do feitiço que virou contra o feiticeiro. Manoel dos Reis Silva, que aliás foi candidato da minha mãe, perdeu para senador, sendo eleito o candidato do MDB, Lázaro Barbosa, apoiado por meu pai.

Assim como em Goiás, o MDB elegeu a maioria das bancadas federais na maioria dos estados, sendo nada menos que 16 senadores dos 23 cargos em disputa naquele ano. A derrota de 1974, somado à luta pela redemocratização que ganhava corpo a partir de 1977, com o crescimento da luta pela Anistia (da qual participei e falarei sobre), levou o governo Geisel a baixar, em abril desse ano, o famoso Pacote de Abril, que passou a ser chamado de “Pacotão”, criando, entre outras coisas, a figura do “senador biônico”. O temor do regime era chegar em 1978 com uma minoria no Congresso Nacional, inviabilizando assim a eleição direta do próximo presidente.

 

Uma nota: os senadores biônicos eram assim chamados por duas razões. A primeira é que, ao contrário de antes e de hoje, com o Pacote de Abril, um terço deles passou a ser escolhido indiretamente pelas assembleias legislativas. A outra é que o nome alude a um seriado famoso na década de 70, chamado O homem de seis milhões de dólares. O homem, no caso, era um coronel norte-americano que se despedaça num acidente com um caça e é reconstituído novamente pela ciência cibernética, sendo metade humano e outra parte ciborgue.

Outra nota: o Pacote de Abril, muito criticado como mais um golpe dentro do golpe, mobilizou jornalistas a criarem, no ano seguinte, o bloco carnavalesco “Pacotão”, um dos maiores de Brasília e o mais irreverente politicamente. O Pacotão completou 41 anos neste 2019.

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