A ditadura militar e minha vida – V

O choro da minha professora me marcou para sempre

Por João Orozimbo Negrão

De Brasília, onde trabalhou na abertura, terraplanagem e pavimentação de praticamente todas as vias principais do Plano Piloto, a Coenge transferiu meu pai para uma série de obras por Minas Gerais. Não lembro exatamente qual idade eu tinha. Só sei que meu pai “foi na frente” e depois buscaria a família, que a esta altura morava em Taguatinga Sul, depois que foi desmontado o acampamento do Parque Dom Bosco, às margens do Paranoá.

Aqui foi o acampamento da Coenge

O Paranoá, alias, era fervilhado de acampamentos de trabalhadores de empresas que trabalharam na construção de Brasília. Hoje só sobraram a Vila Planalto e a Vila Telebrasília. Esses acampamentos iam sendo retirados à medida que o lago enchia. Quando encheu por completo não atingiu totalmente o da Coenge e ficamos lá por mais três anos. Até que tudo foi desmontado por conta do fim da participação da empresa nas obras da capital federal. A Coenge era uma empresa especializada em construção de estradas.

Essa história de buscar a família depois demorou muito. Especialmente na cronometragem da minha mãe. Naquela época as comunicações eram muito precárias e aconteciam sobretudo por cartas, via Correios. ou no máximo pelo sistema de rádio que as empresas operavam para se comunicar mais rapidamente entre si e com seus escritórios. Então, minha mãe começou a ficar preocupada porque meu pai não voltava nem mandava notícias.

Logo ela imaginou que o seu Negrão teria abandonado a família. Ela tinha lá sua razões para pensar assim. Meu pai não era “flor que se cheire”. Um mulherengo incorrigível e com um passado muito misterioso. Da parte da minha mãe nós conhecíamos todos da família. Meu avô, que veio para Brasília com 26 filhos, dos quais 21 adotados, minha avó, todos os meus tios. Depois vou contar a história da vinda de meu avô para Brasília, saindo de Mundo Novo, na Bahia com a filharada.

Mas da parte do meu pai era tudo misterioso. Só sabíamos que ele nasceu em Guarulhos (SP) em 1924 e os nomes do pai e da mãe dele porque em nossos registros de nascimento constavam os nomes dos avós paternos e maternos. De resto ele falava com frequência de episódios que viveu, sempre turbinados por sua imaginava fértil, aquela mesma que criava histórias de reis, guerreiros, gigantes e entidades fantásticas para nos contar na hora de dormir.

Guerra Paulista

Entre as histórias de sua vida que ele gostava de contar estava a sua participação como municiador na Revolução Constitucionalista de 1932, que ele gosta de chamar de “Guerra Paulista”. Poxa, se ele nasceu em 24, em 32 tinha apenas oito anos. Como isso poderia acontecer? Ele contava que meu avô foi convocado para a guerra e levou ele para ajudar no municiamento. Bom, era uma guerra, né? Vai saber.

Mas na Segunda Guerra Mundial ele de fato foi convocado como soldado. Tinha até uma foto para provar. Mas não seguiu para Itália. Ele foi do contingente que ficou de prontidão em Santos à espera do momento de embarcar. Contava que ficava em Santos e região à espera de uma sempre possibilidade de invasão nazista. Mas a guerra acabou antes que ele fosse enviado.

Depois de cumprir sua missão no Exército, seu Negrão gostava de contar como se tornou ajudante de cozinha em navios mercantes que chegavam e saiam de Santos. Contava com orgulho que andou meu mundo. Esta sua vida pelo mar lhe teria rendido três tatuagens que nos fascinavam com nossa curiosidade pueril. Uma delas era o Cruzeiro do Sul no peito esquerdo. A outra era a estrela de Davi, na parte interna do antebraço esquerdo. No outro antebraço, uma âncora. Me lembrava o Popeye.

E era com toda essa fama que meu pai foi transferido para obras em Minas Gerais, deixando a família em Taguatinga. Como não dava notícias há pelo menos um ano, minha mãe foi ao escritório que a Coenge ainda mantinha em Brasília, mas não souberam informar em qual cidade ele estava. Então ela pegou os nomes das cidades onde havia obras da empresa e saiu à procura dele. O achou em Teófilo Otoni. E foi para lá que mudamos, depois seguindo para Governador Valadares, na sequencia Uberaba, Uberlândia, Araxá, Betim, Contagem e Belo Horizonte. Depois Araxá de novo.

10º Batalhão de Infantaria Leve

De Araxá fomos para Juiz de Fora, onde ficamos mais tempo nessas andanças mineiras. Nas outras cidades eram no máximo seis meses. Foi na cidade do sul de Minas que tive a primeira informação sobre o que de fato acontecia no Brasil sob o regime militar. Todas as vezes que passávamos em frente ao quartel do Exército, o 10º Batalhão de Infantaria Leve, meus pais e seus amigos comentavam: “Ali é que estão prendendo e batendo nas pessoas que estão contra o governo”.

No quartel de Juiz de Fora, fiquei sabendo recentemente, tinha presos de vários estados, pois até tem até hoje uma seção da Justiça Militar. Muitos presos pela ditadura eram enviados para julgamento lá. Aliás, Juiz de Fora teve forte participação no golpe de 64. Foi lá que as tropas do general Olímpio Mourão Filho, então comandante da 4ª Região Militar, sediada na cidade, sai com mais de seis mil homens rumo ao Rio de Janeiro.

Tropas de Mourão Filho saindo de Juiz de Fora

A marcha de Mourão Filho (não confundir com o vice-presidente, general Mourão) foi uma das maiores movimentações do golpe que depôs o presidente João Goulart, em 1964. Juiz de Fora, assim como Cuiabá (MT), foi um lugares onde se maquinaram o golpe.

Na capital de Mato Grosso, o coronel Carlos de Meira Mattos, comandante do então 16º Batalhão de Caçadores, hoje de Infantaria Motorizada, foi um dos conspiradores. De lá ele comandou a marcha da capital de Mato Grosso e mobilizando todas as tropas das cidades por onde passou, de Rondonópolis (MT), de onde levou a tropa do Grupo de Artilharia e Campanha, a Goiânia (GO), onde mobilizou o 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, passando por Jataí (GO).

Na manhã do dia 1º de abril, Meira Mattos já estava com as suas tropas nas cercanias de Brasília e foi o primeiro comandante, fora de Brasília a cercar a Praça dos Três Poderes. Eu falei 1º de abril, porque, em verdade, o golpe se consumo de fato no dia da mentira. O 31 de março foi o dia da mobilização das tropas. Consumado o golpe, Meira Mattos seguiu para Goiânia, para ajudar a depor o governador Mauro Borges, do qual acabou sendo sucessor depois de ser nomeado interventor pelo ditador Castelo Branco.

História da maquinação do golpe de 64 em Cuiabá foi objeto de pesquisa minha para um livro-reportagem que estou finalizando. Nele estou como se deram as movimentações do golpe na cidade e como foi a resistência a ele, que teve até um embrião de guerrilha organizado por, entre outros, um outro Carlos, o professor Carlos Reiners, um comunista que jurava ter se encontrado com Ernesto Che Guevara e ensaiou entrar para a guerrilha na Bolívia.

Nesta época meu pai frequentava um terreiro de umbanda e levava todos os filhos com ele. Certo dia o terreiro fechou. Ficamos sabendo que o pai do terreiro tinha sido preso, levado para o quartel do Exército e espancado. A prisão nada tinha ver com a sua atividade religiosa. É que ele era técnico eletrônico e inventor e tinha um rádio-amador que a polícia suspeitou estar sendo usado para “práticas subversivas.

Eu tinha sete anos e aquilo tudo atiçou minha curiosidade. Ficava perguntando sobre e meu pai dizia que não podíamos falar sobre o assunto. Isto me deixou ainda mais curioso e então fui perguntar para minha professora, que chorou porque um parente dela estava preso. Ver minha professora chorar me marcou para sempre e eu comecei a ficar com raiva do governo, que eu nem sabia direito o que era, mas tinha certeza que significava uma coisa ruim. Também passei a ter raiva de polícia e de militares em geral, sentimento que se amplificou depois que sofri com a repressão.

De Juiz de Fora a empresa o transferiu para Pontalina, em Goiás, onde a Coenge fez a rodovia que liga a cidade à BR 153. Ali ficamos também seis meses. Como os pinga-pingas de cidade em cidade estavam prejudicando os estudos dos filhos e minha mãe não deixava meu pai ser transferido sem levar a família, ele resolveu pedir demissão. De fato todos nós perdemos anos de escola por conta das andanças e todos os filhos estava atrasados nos estudos.

E assim o fez. Pegou a indenização, comprou a casa do Jardim Novo Mundo, em Goiânia, comprou uma Kombi e saiu para comprar galinhas e bananas nos sítios e fazendas das cidades vizinhas e revender nas feiras da capital goiana. Foi assim que eu e minha irmã Fátima, mais velha dois anos, viramos feirantes. Eu era o encarregado de me enfiar dentro da gaiola enorme na Kombi para pegar as “penosas” escolhidas pelas “madames”. No final estava todo arranhado, bicado e cagado pelas galinhas.

Quando chegamos em Goiânia eu tinha nove anos. E foi com esta idade que comecei a trabalhar de entregador de marmitas para operários que trabalhavam na construção de prédios no Setor Sul. As esposas dos trabalhadores contratavam meninos com menos de dez anos para entregar as marmitas porque esta era a idade limite para pagar passagens de ônibus. E eu, com menos de dez e ainda franzino, não tinha esse problema. Logo, de uma, passei para seis entregas, levando as marmitas de alumínio em dois suportes também de alumínio, com três em cada. Era o máximo que eu conseguia carregar, mas mesmo assim muito pesado.

Por conta das entregas das marmitas eu trabalha nas feiras com meu pai somente aos domingos. Entregava as marmitas de manhã e corria para estudar a tarde. Na época eu estudava em uma escola no Setor Sul e quase sempre já ia de uniforme e pasta escolar para ir direto para a escola depois das entregas. Foi nessa escola, cujo nome não lembro, mas que já foi extinta e transformada em outro órgão do governo, que aconteceu outro episódio que me marcou muito.

Eu tinha dois colegas que sempre andávamos juntos. Era o Sérgio e o Plácido. Sempre estávamos juntos no recreio e carteiras próximas. Até que um dia o Sérgio deixou de frequentar a escola. Sua avó foi buscá-lo e nunca mais o vi. Mas na escola o burburinho me fez chegar a informação de que seus pais haviam sido presos por causa de suas atividades políticas.

Era 1970 e o governo linha dura de Emílio Garrastazu Médici estava no auge. “Garrastazu”, pensava eu, menino ingênuo, mas muito curioso. “Que nome feio”, respondia a mim mesmo. Aqueles foram os “anos de chumbo”, o período mais cruel da ditadura militar, época que, depois da decretação do Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, o regime se fechou ainda mais, intensificando as prisões, torturas, exílios, assassinatos e cassações de opositores.

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