Medidas do governo são paliativas e greve dos transportadores ainda é possibilidade, afirma líder da ANATC

Para Carley Welter, as propostas de Jair Bolsonaro e seus ministros não traz paz, “mal apaga as chamas grandes, mas lá embaixo, nas bases, as brasas continuam vivas”

Por João Negrão

Da Editoria

A busca do presidente Jair Bolsonaro e seus ministros por uma solução para os problemas do transporte rodoviário de cargas é válida e o governo apresenta, no geral, propostas importantes, mas são em sua maioria paliativos, que não resolvem em definitivo a situação de todos os segmentos do setor. A opinião é do gerente-executivo da ANATC (Associação Nacional das Empresas Agenciadoras de Transporte de Cargas), Carley Welter.

São medidas que não resolve nenhum problema do setor. A gente tem problemas mais amplos que isso aí [pontos que o governo que solucionar]. Claro que o governo está com medo de uma nova greve de motoristas e a possibilidade de greve é real”, enfatizou Welter. Segundo ele, a possibilidade de paralisação “deu uma baixada nos últimos dias porque o Bolsonaro segurou o preço do diesel junto à Petrobras, prometeu divulgar essas medidas, que hoje fizeram”.

Isso deixou um pouco menos tenso, porque estava em vias de estourar uma greve mesmo, mas só aliviou a pressão, a pressão dos motoristas reduziu. Mas o problema real continua. As medidas são paliativas, boa parte delas não tem muito utilidade prática no mercado, não vai fazer o cara [virtual grevista] recuar”, asseverou. “Financiamento de 30 mil é uma medida interessante, vai dar um fôlego para o motorista. Mas resolve? Não resolve. O cara vai ter que pagar, não importa se é a juros subsidiados, de toda a forma o motorista vai ter que pagar. Ele já vem endividado, capacidade de pagamento reduzido, frete barato, enfim, isso não vai resolver”, acrescentou.

Para Carley Welter, a solução para os problemas do conjunto dos transportadores só vai acontecer quando o governo se reunir com todos os envolvidos. “Mas não pode sentar individualmente com uma categoria. Não pode ser só com autônomos, só com pequenos, médios ou grandes transportadores, só com as empresas de pedágios, e depois com os embarcadores, e assim por diante”, critica. “Tem que botar todo mundo numa sala e conversar, colocar os representantes de todos e dar a chance de todos falarem e ouvir todos os segmentos, porque senão fica esse negócio de apagar fogo daqui e apagar fogo dali”, sugere.

O líder da ANATC propõe a criação de um conselho ou qualquer outro instrumento no qual todos os segmentos do setor de transporte rodoviário de cargas possam estar representados e, em conjunto, buscarem uma solução definitiva e não paliativos. “É preciso tomar medidas definitivas para atender um setor que está abandonado, sempre esteve abandonado pelos governos, porque isso não é uma coisa de hoje”, emendou Welter, reiterando a necessidade de se pensar não apenas um segmento, mas o conjunto do setor.

Ele exemplifica o caso da tabela de frete. Um dos problemas muito sérios com tabela de frete, observa o dirigente, é que ela é diferente de preço mínimo de produto agrícola, que se o governo tabela ele subsidia diante da oscilação de preços. “No caso do frete o governo quer que a iniciativa privada pague a diferença entre o frete de mercado e o frete de um piso mínimo. Isso nunca funciona. Quando a iniciativa privada é provocada ela acha mil maneiras para essa conta não vir para a mão dela. Então é importante o governo ter a sensibilidade de saber que não tem nada de graça. Se um é obrigado a pagar agora ele vai tentar tomar do outro logo à frente”, analisou. “Assim não se cria uma paz no setor. Se apaga o incêndio apenas nas chamas grandes e lá embaixo, nas bases, as brasas continuam vivas”.

Carley Welter também defende que o Congresso Nacional crie mecanismos de debates sobre a situação dos transportadores rodoviários de cargas. “É preciso também que o Legislativo, onde as ideias são mais plurais, também participe e chame essa galera toda, mapeie quem realmente é representante, todos os segmentos do setor, e chame todos que fazem parte do setor de transporte rodoviário de cargas para cada um expor o que lhe afeta. Porque não adianta olhar só para uma parte. Porque muitas vezes a gente pede muita coisa para a gente e esquece do seu vizinho, que vai passar fome e quando isso acontecer ele vai gritar. Então ou eu vou pagar mais caro ou não vou ter o produto”, observou.

Eu acho que nós temos que discutir é a sobrevivência do setor. E falo mais, sem nenhum medo de errar: se a gente não resolver isso de forma que vai favorecer todo mundo, o crescimento do agronegócio estará comprometido. Porque o crescimento do agronegócio se dá em cima de logística rodoviária”, alerta. “O custo baixo de produção se deve, principalmente, ao transporte rodoviário de cargas e ao setor de agenciamento. Se isso não for resolvido, o produtor vai pagar mais caro e, o principal, a gente pode não ter o transporte. E se tiver e tiver caro, os produtos vão custar mais caros”, agregou.

Se o quilo do milo ficar caro, o franco também terá seus preços elevados. É tudo uma cadeia. Ou seja, estamos todos amarrados uns aos outros e a gente precisa achar uma maneira de todo mundo remar para um lado só. Pode até ter gente que não queira remar, mas não pode remar contra”, finalizou.

Na semana passada, a ANATC divulgou uma carta aberta ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, na qual expõe todos os problemas que afetam o setor.

Confira a íntegra do documento:

Carta Aberta ao

Exmo. Presidente da República – Jair Messias Bolsonaro Sr. Ministro da Infraestrutura – Tarcísio Gomes de Freitas

No último dia 03 de março de 2019, o Ministro Tarcísio de Freitas, em uma palestra na CNTA, arguiu que o grande problema do transporte é o “atravessador”, o que nos deixa muito esperançosos, afinal reconhecer que existe um agente de mercado que possui esse tipo de força e consegue permanecer com grande parte do dinheiro das operações de transporte e cria desigualdade no setor é um grande passo.

O Ministro não se referiu diretamente, mas acreditamos que a identificação de “atravessador” não possa ser referente as redes de postos de combustíveis.

Isso porque, segundo dados da ANP – Agencia Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a Margem Média Bruta de Revenda de Diesel no ano de 2018 não ultrapassou 11,18 %, considerando todos os custos inerentes à operação, a geração de emprego e renda criados pelo setor, além da dificuldade de manutenção e operação na atividade devido a burocracia criada por diversos órgãos reguladores e entidades sindicais, sem nos esquecer, da alta carga tributária, portanto, descaracterizando este agente de mercado como “atravessador”.

Além disso, analisando as palavras do Ministro não podemos crer que este esteja se referindo às EMPRESAS AGENCIADORAS DE TRANSPORTES DE CARGAS.

Isso porque, para as empresas agenciadoras de transportes de cargas operarem no país de modo competitivo, gerando empregos e renda, também demandam grandes estruturas, com escritórios, veículos, bases de abastecimento, colaboradores qualificados, além de grande aporte financeiro.

Justifica-se, pois, as referidas empresas fomentam grande parte da operação de Frete Rodoviário no país, adiantando muitas vezes até 90% do Frete ao Caminhoneiro, tendo que arcar com os riscos de recebimento junto ao cliente, este que muitas vezes se utiliza das benesses da Lei para superar sua crise econômica por meio de processo de recuperação judicial, ceifando a cada novo pedido uma empresa de nosso setor, haja vista que ganham um “folego” e postergam o pagamento de suas obrigações.

Além do mais, as margens variam de Estado para Estado, sendo certo que é consenso do mercado que a margem bruta de operação atual varia em torno de 3% a 7%, o que ao arremate poderia gerar um lucro médio de 1 a 1,5% da operação.

Assim, pensamos que quando o Ministro dispõe em “atravessador”; o Governo deva estar se referindo às 34 (trinta e quatro) operadoras de pagamento eletrônico de frete, a qual a ANTT criou para subjugar todo um setor.

O setor do transporte rodoviário de cargas é o único do Brasil que tem a obrigatoriedade de realizar suas movimentações financeiras por meio das empresas “homologadas”, onde a moeda corrente (o REAL) não é válida.

Salienta-se que no lugar da moeda corrente o Embarcador/Agenciador tem a obrigação de arcar com taxa média de 1% para colocar dinheiro no cartão, sendo que os Postos de Combustíveis devem pagar até 3% para receber o dinheiro do mesmo.

Ficamos contentes em perceber que o Governo está identificando estes mecanismos criados por Governos anteriores, sendo que esperamos que com a implantação do DT-e venha para, definitivamente, acabar com a cobrança dos verdadeiros “atravessadores”, permitindo novamente que a moeda corrente tenha valor financeiro em nosso setor, eliminando assim ou pelo menos diminuindo a operação de um agente financeiro, o qual não possui estrutura compatível com os bilionários lucros que vem almejando ao longo dos anos às custas de pequenos e médios Transportadores de Cargas.

Assim, entendemos que realmente precisamos reduzir a participação do Estado no mercado, pois até o presente momento tudo que os Governos anteriores conseguiram com suas práticas foi criar os chamados “Campeões Nacionais”, e agora, mais uma vez, infelizmente, esta prática vem ganhando força com a intervenção nos Preços Mínimos de Frete, os quais não refletem a realidade do mercado, o qual é baseado na “Lei de Oferta e Demanda”.

O Governo, mais uma vez, irá subjugar os autônomos e os pequenos transportadores à marginalidade do mercado, impedindo os mesmos ao acesso de grandes volumes e oportunidades, pois uma vez definida e instaurada a insegurança jurídica, será muito mais vantajoso para um grande embarcador fixar contrato com grandes empresas transportadoras a preços muitas vezes inferiores ao “Piso Mínimo de Fretes” do que correr o risco de aumentar seus custos com frete sendo pago no “Piso” e correndo o risco de esbarrar em alguns dos emaranhados de leis criados para “defender” o motorista autônomo de cargas.

Não é demais ressaltar que sem o atual modelo de agenciamento de cargas, o mercado de transporte corre risco de sofrer seu colapso final, inclusive atingindo as partes, as quais teoricamente mais conclamam por benefícios.

Ainda, é válido dizer que a intervenção estatal com Preços Mínimos de Frete, em patamares hoje estipulados por Resolução, atingem sobremaneira os custos de produção, haja vista que os valores subirão em todos os sentidos, inviabilizando a exportação de commodities; criando um monopólio para as grandes transportadoras e impedindo que autônomos e pequenos transportadores acessem grandes mercados.

Assim, dificultando que pequenos comerciantes realizem negócios no Brasil, diminuindo o gargalo logístico e impedindo o crescimento por tais dificuldades.

Concluímos ao arremate de nossa carta que estamos esperançosos com o novo Governo e seu novo plano político, ao qual o Sr. Exmo. Presidente Jair Messias Bolsonaro tanto propagou na sua subida ao Planalto como Autoridade Máxima do Executivo do nosso País, sendo certo que nos colocamos a disposição para colaborar com toda e qualquer demanda que possa vir para ajudar a tornar nosso setor mais eficiente e justo a todos os agentes envolvidos, colaborando para o desenvolvimento de nossa grande nação.

No vídeo abaixo o gerente-executivo da ANATC relata a carta enviada ao governo:

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